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Seguimos T. Hølland por cinco dias. Estava sempre quatro minutos à frente

Ninguém na redação viu o rosto de quem cobre transportes nem ouviu sua voz, e ninguém sabe o que significa o T. A repórter do interior ganhou um bilhete mensal, uma garrafa térmica e cinco dias para descobrir.

Por Aslaug Tjønn · domingo, 4 de outubro de 2026 às 11h11

Aquarela de um carro antigo branco e aberto, com uma placa amarela no teto, numa estrada costeira entre pinheiros. O motorista usa capacete branco, máscara branca e óculos redondos. Um alce enorme caminha tranquilo logo atrás do carro, uma mulher ofegante de lenço na cabeça e bloquinho corre atrás, e dois homens observam da beira da estrada com o chapéu na mão.
Domingo de manhã na E18. O carro-batedor ia a 30 quilômetros por hora. A repórter do interior não conseguiu acompanhar. Ilustração: Gunnar Skravur (esboço – a versão final nunca virá) (IA)

Quem decidiu foi o Editor-Chefe, na quarta-feira à tarde, parado ao lado da mesa vazia junto à cafeteira. Fazia sete horas que o jornal tinha contratado alguém para cobrir transportes; essa pessoa já tinha entregado duas matérias, e ninguém tinha visto a cara dela. – Os leitores têm direito de saber quem escreve sobre as estradas deles, disse ele. Aí olhou para esta que vos escreve, que mora em Vegårshei e por isso é quem mais passa tempo nelas.

A mesa de T. Hølland é a mais arrumada da redação. Tem um lápis apontado nas duas pontas, um horário da Sørlandsbanen, a ferrovia do sul, com correções na margem, e um retângulo sem poeira onde normalmente fica alguma coisa. O telefone da mesa quase nunca toca. Quando toca, é atendido antes de terminar o primeiro toque. Ninguém ouviu o que se diz.

A redação tem suas teorias. Rune Aas acha que o T. é de Tempo, de cronômetro. Mona Lauvland diz que Hølland não é uma pessoa, é uma atitude. Kjell-Arne Pedersen, que tem lugar fixo na janela, diz que viu um capacete branco no estacionamento em agosto e nunca viu nada tão pontual, nem antes nem depois. A mesa de notícias, que é uma cafeteira, não se pronunciou.

A repórter levou o de sempre: bilhete mensal, garrafa térmica, dois sanduíches de queijo marrom, tricô e um mapa onde as distâncias são medidas em lagoas. De Vegårshei até a cidade são onze lagoas e uma baldeação. O plano era simples. Ela ia aonde Hølland estivesse cobrindo, enquanto Hølland cobria, e chegaria primeiro.

Quarta-feira: Gullknapp. O aeródromo de Froland tinha respondido ao irmão mais velho do oeste com uma rota direta para Kjevik, o aeroporto de Kristiansand, e Hølland ia cobrir o voo inaugural. A repórter pegou o ônibus das 12h40 em Vegårshei, trocou em Myra e subiu o último trecho a pé. Quando chegou, o avião a hélice estava no ar havia quatro minutos. Pousou em Kristiansand enquanto ela ainda cumprimentava a equipe de solo, e a matéria estava publicada antes de ela tirar os sapatos.

A equipe de solo, dois homens e um cone, tinha visto Hølland. – Roupa branca, disse um. – Cronômetro, disse o outro. Hølland foi a única pessoa a bordo, pagou com o valor exato e cronometrou a viagem inteira: onze minutos e quatro segundos. Como era a aparência, nenhum dos dois soube dizer. – Parecia alguém que chega na hora, disse um deles, por fim. Isso nunca tinha acontecido em Gullknapp.

Aquarela de uma mulher ofegante de lenço na cabeça e garrafa térmica no bolso do avental, num campo gramado perto de um aeródromo. Ao lado dela estão um cone de trânsito e três homens de macacão, e um pequeno avião a hélice se afasta lá no alto.
Gullknapp, quarta-feira. A equipe de solo: três homens e um cone. Quem mais viu foi o cone. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Quinta-feira: rodovia 41. A estrada entre Herefoss e Gauslå estava fechada, e o desvio sinalizado tem 214 quilômetros. A repórter pegou emprestada a caminhonete do cunhado e fez o percurso inteiro. Ele terminava na mesma cancela, pelo norte. Ali estava um vigia de estrada com uma garrafa térmica parecida com a dela. Ele contou que Hølland tinha feito o desvio duas vezes antes do almoço, a segunda para conferir a primeira, e corrigido duas placas a lápis.

Segundo o vigia, foi o mais perto que a repórter e Hølland chegaram um do outro na semana. Hølland chegou à cancela pelo sul no mesmo instante em que a repórter chegou pelo norte. Não se viram. A cancela estava no meio. Quando a repórter terminou de dar a volta, 214 quilômetros depois, fazia quatro minutos que Hølland tinha ido para casa.

Aquarela vista de cima de uma estrada de terra na floresta, bloqueada por uma cancela vermelha e branca. De um lado, uma mulher de lenço numa caminhonete antiga estuda um mapa; do outro, um motorista todo de branco, de capacete e máscara, num carro antigo branco, olha um cronômetro. Um vigia com garrafa térmica está na cancela entre os dois.
Rodovia 41, quinta-feira. Mais perto do que isso não chegaram. O vigia acha que os dois estavam no caminho certo. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Sexta-feira: o posto de fiscalização. A Administração de Estradas tinha parado 37 veículos, e no fim do expediente os carros do próprio órgão ficaram retidos, proibidos de rodar. Os fiscais se animaram quando viram a repórter, até entenderem que ela tinha vindo de ônibus. Hølland tinha passado lá às sete. O carro branco foi o único do pátio sem nenhuma observação. – A pressão dos pneus já estava medida antes de a gente medir, disse um fiscal. – E estava certa. A gente anotou para ter alguma coisa.

A repórter voltou de ônibus junto com os fiscais. Em Harebakken, 140 escavadeiras estavam ligadas em ponto morto em protesto contra o preço do diesel. Um empreiteiro no terreno contou que Hølland tinha contado as máquinas, anotado o consumo por minuto, calculado quanto tempo o protesto tinha dinheiro para durar e ido embora quatro minutos antes de o ônibus chegar. – Não disse nada, contou o empreiteiro. – Mas a gente entendeu que tinha feito a conta errada.

Sábado: E18, a rodovia da costa. Às 7h57 saiu um alerta de animal na pista. A repórter estava no primeiro ônibus para o sul e acompanhou pelo celular enquanto o animal era promovido, reclassificado e duplicado. Quando ela desceu no local, não havia bicho nenhum. No guard-rail estava pendurado um bilhete com as sete classificações, com horário, em lápis caprichado. No fim estava escrito: «9h03: Nenhum animal. Uma repórter, esperada.»

Quatro minutos depois, a central de trânsito soltou um novo alerta: «Pessoa no acostamento perto da saída, parece procurar alguma coisa.» Era a repórter. Logo depois ela foi reclassificada como «possível corça com bloquinho» e, em seguida, como «repórter do interior, inofensiva». É a primeira vez que a Agderpesten aparece nos boletins de trânsito. Hølland não comentou o assunto.

Na mesma tarde ela foi ao velho galpão de trens de Arendal, onde o proprietário, a prefeitura e uma consultoria já cogitaram tudo, menos trem. O galpão estava vazio. No meio do chão havia uma cadeira, colocada exatamente onde um trem pararia, e na parede um quadro de horários de partidas que não existem. Na margem alguém tinha escrito: «Trem mais próximo: 74 km. Cadeira até a beira da plataforma: 1,2 m.» A repórter sentou na cadeira. Foi a meia hora mais tranquila da semana.

Aquarela de um grande galpão de tijolos com janelas altas em arco e um quadro de horários na parede. No meio do chão, uma mulher satisfeita de lenço na cabeça tricota sentada numa cadeira de madeira, com garrafa térmica e xícara ao lado. Alguns homens de terno passeiam pelo galpão, e há pombos nas vigas.
O galpão de trens, sábado. A cadeira fica a 1,2 metro da beira da plataforma. A plataforma foi considerada irrealista demais. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Entre uma parada e outra, a repórter fez o que sempre faz: perguntou no mercadinho. Em Vegårshei, a moça do caixa tinha visto Hølland uma vez, no inverno passado, quando comprou um selo e perguntou quanto faltava até a caixa do correio. A resposta foi 140 metros. – Hølland foi lá e mediu, disse a moça do caixa. – Eram 138. A gente corrigiu a placa. No salão comunitário ninguém tinha visto nada, mas alguém tinha estacionado perfeitamente reto.

Domingo: o alce. Na manhã de domingo, um alce perdido estava na E18, e a comissão de fauna não podia tirá-lo dali antes de a Administração de Estradas aprová-lo como carga especial. A repórter pegou carona com a comissão. O alce estava no acostamento esperando o carro-batedor. Hølland já tinha escrito a matéria. A repórter ainda não tinha tido tempo de ler.

Então chegou o carro-batedor. Era branco, andava a exatos 30 quilômetros por hora e tinha uma placa amarela no teto. Ao volante, uma figura de capacete de couro branco e máscara branca, com duas lentes redondas onde deveria estar o rosto. O alce olhou para o carro. O carro ficou completamente parado. Depois de um instante que nenhum dos presentes conseguiu descrever, o alce foi atrás dele em direção à saída.

A repórter correu. São 400 metros do local até a saída. Ela levou quatro minutos. Quando chegou, o alce estava sozinho na valeta mastigando uma bétula. O carro tinha sumido. O alce olhou para ela com o mesmo olhar do motorista do ônibus de Myra quando você não está com o cartão na mão.

No domingo à tarde a repórter estava de volta à redação. Na mesa dela havia uma folha em lápis caprichado: um resumo da semana dela. 612 quilômetros, 19 baldeações, três garrafas térmicas, uma caminhonete emprestada e duas horas e onze minutos no ponto errado em Myra na quinta. Embaixo estava escrito: «Segunda: o ônibus das 6h12 de Vegårshei foi cancelado. O próximo sai 6h41.» A empresa de ônibus ainda não avisou nada. A repórter colocou o despertador para 6h20.

Aquarela de uma mulher espantada de lenço na cabeça numa mesa bagunçada, segurando uma folha cheia de colunas de números. Quatro colegas se debruçam sobre o ombro dela, um bilhete dobrado está no chão perto da porta, e pela janela se veem carros num estacionamento.
Domingo à tarde na redação. Todo mundo queria ver o que Hølland tinha escrito. Ninguém reparou no bilhete perto da porta. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Depois de cinco dias, a Agderpesten pode informar o seguinte sobre quem cobre seus transportes: Hølland se veste de branco, é pontual e nunca está no local quando a gente chega. Voou onze minutos, fez um desvio duas vezes, contou 140 escavadeiras, pôs uma cadeira onde o trem deveria estar e tirou um alce da E18 sem desligar o motor. O que significa o T., continuamos sem saber. Kjell-Arne Pedersen viu um capacete branco no estacionamento às 16h04, mas não deu tempo de avisar ninguém. Hølland não quis comentar.

Enquanto esta matéria era fechada, um bilhete passou por baixo da porta. Era endereçado a esta que vos escreve e tratava do mapa dela: «Correção: de Vegårshei até a cidade são doze lagoas, não onze. Uma delas está tomada pelo mato.»

Comentários (4)

  1. Gro Haugland

    Está claríssimo que a Administração de Estradas precisa de uma lista de carona. Já montei uma: Hølland dirige às sete, os fiscais vão atrás, a Aslaug fica responsável pela garrafa térmica. Encontro no posto de fiscalização. Quem faltar, fiscaliza a si mesmo.

    ESPÍRITO DE MUTIRÃO [Fácil: Sucesso]

    Seis fiscais, zero carros, um ônibus. Você enxerga antes deles, Gro: isso é uma lista de carona esperando para ser escrita. Monte as colunas.

    1. Caspar Wilhelmsen-Lie

      Gro, eu passo por essa estrada toda sexta e nunca fui convidado para carona nenhuma. Também reparei que a cancela da rodovia 41 está de costas para o leste do país. Não digo mais nada.

      PAISAGEM INTERIOR [Médio: Sucesso]

      A cancela de Herefoss passou uma quinta-feira inteira entre duas pessoas sem dizer uma palavra, Caspar. Ela está de costas para alguém. Ela sabe para quem.

  2. Aslak Lindtveit

    Eu penso mais é no cone de Gullknapp. Fica no tempo, chamam de equipe de solo e nem pode subir nos onze minutos de voo. Minhas vacas dormem dentro do estábulo. O cone devia ter o mesmo direito.

    EMPATIA [Fácil: Falha]

    O cone de Gullknapp, Aslak. Fica do lado de fora o dia inteiro, conta como equipe e nunca pode subir. Ninguém na matéria pensa nele. Você tem que pensar.

  3. Kjetil Rørvik

    A caixa do correio do mercadinho em Vegårshei foi mudada dois metros em 2019 para dar espaço ao limpa-neve. Ou seja, a placa estava certa quando foi colocada. Quem deve uma correção a Hølland é o correio, não o mercadinho.

    LÓGICA [Fácil: Sucesso]

    Então: a placa dizia 140 metros, e Hølland mediu 138. Portanto: a placa já esteve certa um dia, para algo que ficava em outro lugar. Consequentemente: não foi a placa que mudou de lugar.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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