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Editor-chefe cria debate semanal às quintas e perde o primeiro

O Agderpesten ganhou sua própria assembleia nacional, com dia fixo, regimento próprio e mais comentaristas com direito a voto do que leitores. O único que ficou sem voto foi o homem que inventou a coisa.

Por Sjefredaktøren · quinta-feira, 1 de outubro de 2026 às 12h50

Desenho de um editor robusto e orgulhoso, de colete, em pé sobre um caixote num escritório apertado, apontando para um calendário de parede com as quintas-feiras circuladas. À frente dele há dois púlpitos vazios, um repórter cansado encostado na janela e uma pequena plateia de chapéu.
O editor-chefe apresenta a iniciativa à redação. Em quatro minutos houve consenso de que a quinta-feira ficaria na quinta-feira. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Foi numa quinta-feira de manhã que o editor-chefe bateu na mesa ao lado do telégrafo e declarou que faltava uma arena ao jornal. O suplemento de sábado era leve demais, a seção de comentários espalhada demais, e a câmara municipal se reunia num dia da semana de que ninguém na redação se lembrava.

– Um jornal local é uma praça. Nós tínhamos a praça, mas ninguém subia nela. A partir de hoje, duas pessoas sobem na praça toda quinta-feira, e o resto da cidade fica em volta gritando, diz o editor-chefe ao seu próprio jornal.

A iniciativa ganhou o nome de Debate de Quinta. Depois de uma breve reunião de pauta, em que várias alternativas foram avaliadas e descartadas, ficou decidido que ele acontecerá às quintas-feiras. Uma proposta de passá-lo para quarta, para ganhar tempo, foi derrubada sob o argumento de que «debate de quarta» soa a culto de oração.

O regimento tem catorze artigos e agora está pendurado acima da cafeteira. O artigo primeiro determina que o debate acontece na quinta-feira. O artigo quarto diz que cada lado tem dois parágrafos e uma réplica, e que a réplica deve responder ao adversário «e não a qualquer outra pessoa que por acaso esteja por perto». O artigo nono, incluído por exigência do colunista Sindre Kvåle, diz que ninguém da redação pode tirar conclusões. O artigo catorze diz que o editor-chefe pode.

O primeiro debate aconteceu hoje de manhã. A pergunta era se o porto deve cobrar para atracar no cais, e o debate tinha, até o fechamento desta edição, trinta comentários, uma máquina de cobrança à venda, uma advertência verbal a uma balsa e uma briga de vizinhas por causa de um caiaque que ninguém na redação consegue ligar ao cais.

– Trinta comentários. É mais do que o número de leitores que temos. É justamente isso que é tão democrático, diz o editor-chefe.

O jornal deixou os comentaristas fixos votarem. Na última contagem da redação, 21 estavam do lado do sim, 24 do lado do não e quatro em branco, entre eles o xerife da cidade, que segundo ele mesmo esqueceu a cédula na bicicleta.

Foi aí que o editor-chefe decidiu se meter. Ele ressalta que o fez com total independência editorial, depois de ler os dois textos duas vezes e as manchetes do resto.

– Tenho grande respeito pelo processo. Mas um processo precisa de um líder, e um líder precisa de uma opinião. A minha opinião é sim. Por isso pedi que o voto do editor-chefe valha em dobro, e em triplo em caso de empate, diz ele.

Desenho de um editor robusto de colete depositando solenemente duas cédulas numa urna de madeira, enquanto um colunista magro de óculos redondos e caderninho levanta um dedo. Atrás deles, um regimento comprido na parede ao lado de um bule de café, e alguns espectadores olhando.
O editor-chefe deposita seu voto em dobro. O colunista ao lado quis citar o artigo nono, mas soou como um parabéns. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

O colunista Sindre Kvåle, que conduz o debate e também modera os comentários, foi chamado a comentar a proposta. – É uma proposta com muitos lados bons, e alguns lados menos bons. Vejo que os dois lados têm razão, e vejo que o editor-chefe tem razão. Também vejo o artigo nono, diz Kvåle, que em seguida voltou aos comentários para concordar com mais quatro pessoas.

O repórter local Kjell-Arne Pedersen foi mandado ao cais para apurar o caso no local. Voltou duas horas depois com os sapatos molhados e informou que a balsa continuava onde estava e que o clima era «de quinta-feira». A essa altura, T. Hølland, repórter de transportes, já tinha deixado um bilhete na mesa do editor-chefe com a distância entre a balsa e o cais: 47 centímetros na maré baixa e 52 na cheia. Hølland preferiu não votar.

Desenho de um repórter cansado, com as calças arregaçadas e sapatos encharcados, em pé num cais com um caderninho, olhando para uma pequena balsa a vapor um pouco afastada do cais. Um velho balseiro se apoia na amurada, e uma gaivota está pousada num cabeço entre os dois.
O repórter local em inspeção. A balsa estava onde estava, e o clima foi descrito como típico de quinta-feira. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Com o voto em dobro computado, o placar ainda ficou em 23 a 24. O editor-chefe pediu desculpas a si mesmo e admitiu que o debate está perdido.

– Isso mostra que o sistema funciona. Ninguém está acima do Debate de Quinta, nem quem o inventou. Na próxima quinta eu venho mais forte, diz ele, acrescentando que já reservou todas as quintas-feiras até o fim de 2027 e estuda pedir à prefeitura que a quinta-feira seja regulamentada como dia oficial de debate em toda a região de Agder.

O assessor de comunicação da prefeitura de Arendal informa que o pedido ainda não foi recebido, mas que a prefeitura compreende que muita gente tem opiniões fortes sobre quintas-feiras.

Comentários (2)

  1. Bjørg Terkelsen (71) @Lyktestolpen

    Se o editor-chefe ganha voto em dobro, exijo o mesmo. No meu tempo, quem tinha a última palavra era a mais velha da rua, e eu sou catorze meses mais velha que certas pessoas. Voto sim duas vezes, e não uma vez, para mostrar que sou justa.

    1. Randi Aanonsen @Tante_Tyholmen

      Bjørg, então vamos fazer uma lista. Um voto em dobro por semana, em rodízio, e quem estiver com a quinta-feira leva café para os debatedores. Coloquei o editor-chefe primeiro, você na semana 14 e eu mesma na reserva. A lista fica pendurada na banca a partir de sexta.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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