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Mandamos um repórter ao Brasil para descobrir o que a correspondente faz. Ela o traduziu
Quatro horas depois da contratação, a correspondente do Agderpesten no Brasil não tinha enviado uma única matéria. Kjell-Arne Pedersen foi a Florianópolis na mesma tarde com capa de chuva, garrafa térmica e três pares de meias de lã para descobrir por quê.
Levou quatro horas até alguém na redação fazer a pergunta em voz alta: o que é que a nossa correspondente faz, afinal? Depois da contratação, Giovanna Kellyane dos Santos ainda não tinha enviado uma única reportagem do Brasil. Em compensação, traduziu todo o resto.
O Redator-chefe decidiu na mesma tarde que o caso precisava ser investigado no local. A escolha recaiu sobre Kjell-Arne Pedersen, que não tira férias desde a fusão dos municípios e por isso, segundo o Redator-chefe, «tem mais tempo de viagem acumulado». A viagem foi financiada com a venda da segunda cadeira da redação.
Pedersen levou o seu sistema de blocos de notas, uma garrafa térmica de café, uma capa de chuva e três pares de meias de lã. Esta última escolha revelou-se um erro de avaliação.
– Eu tinha lido que era primavera lá embaixo. Para nós, isso significa oito graus e neve molhada, diz Pedersen, que aterrissou em Florianópolis com 31 graus e perguntou onde ficava o balcão de atendimento da prefeitura.
A correspondente não foi difícil de encontrar. Estava onde sempre está: numa pequena escrivaninha numa varanda com vista para o mar, com uma máquina de escrever, um dicionário norueguês-português do tamanho de uma Bíblia de igreja, um ventilador elétrico e um tucano que lê por cima do ombro dela.
– Finalmente! Entra, entra. Quer um café? Estou fazendo o tempo de Arendal, disse dos Santos, mostrando a tradução da manhã. «Onze a dezesseis graus e chuva fraca» estava traduzido com exatidão, e ela tinha acrescentado duas palavras por conta própria: «que pena».
Pedersen explicou que tinha vindo para ajudá-la a começar a fazer reportagens. Ela ouviu com educação, assentiu com a cabeça e traduziu para o português o que ele dizia enquanto ele dizia.
O método dela é simples. Tudo o que o Agderpesten publica vai parar na sua escrivaninha, e tudo o que vai parar na sua escrivaninha é traduzido. Os anúncios também. O obituário de uma cadeira de jardim jogada fora depois de 22 anos a fez chorar por dois dias.
– Aquela cadeira fazia parte da família. Por que ninguém na Noruega diz isso em voz alta? pergunta ela.
A correspondente também acompanha de perto os comentários. Tem os seus favoritos e responde a eles de cabeça. À comentarista que assina com «abraço», ela responde com «beijos» todos os dias, sem que nenhuma das duas saiba.
Pedersen passou a maior parte do tempo diante do mapa. Na parede acima da escrivaninha há um mapa da Noruega desenhado à mão, tal como a correspondente entende o país. Oslo ocupa quase tudo. Arendal é um bairro ao lado do centro, e Grimstad aparece como «o bairro rival».
– Tentei explicar que são três horas de carro entre Oslo e Arendal. Ela disse que era exatamente o mesmo que da casa dela até a padaria na hora do rush, e que portanto estava certo, conta Pedersen.
Ele decidiu não insistir. A redação já concluiu que uma correção seria interferir na sua independência jornalística.
No terceiro dia, Pedersen fez uma última tentativa. Sentou-se com a correspondente e explicou como se escreve uma notícia: quem, o quê, onde, quando. Ela tomou notas detalhadas. Quando ele olhou por cima do ombro dela, ela tinha traduzido o bloco de notas dele para o português, incluindo a lista de compras no verso.
O Redator-chefe acompanhou a visita de Arendal por telégrafo e está satisfeito com o resultado. – Mandamos um repórter ao Brasil para conseguir uma matéria do Brasil. Agora temos uma matéria do Brasil. É o que chamamos de investimento que se paga sozinho, diz ele.
Ele acrescenta que o jornal estuda transformar a visita à correspondente numa tradição anual, «desde que tenhamos mais cadeiras».
Para Pedersen, a viagem teve um efeito colateral inesperado. Depois de três dias na varanda, ficou queimado de sol no lado esquerdo do rosto, o que estava virado para o mar, e o departamento pessoal decidiu registrar a viagem como férias, retroativamente. São as primeiras desde a fusão. O fato de os três dias no Brasil terem terminado antes da previsão do tempo da noite em Arendal é explicado pelo Redator-chefe pela diferença de fuso horário.
O ilustrador do jornal, Gunnar Skravur, que pede férias desde setembro, perguntou como se faz para ser mandado ao Brasil. O pedido dele está em análise.
Quando Pedersen voltou para casa, a correspondente o acompanhou até o aeroporto. Deu-lhe um abraço, um pacote de café e um exemplar já traduzido da reportagem que ele ia escrever sobre a visita.
– Eu ainda nem tinha começado, diz Pedersen. – Mas a versão em português estava bem boa. Acho que talvez eu a traduza de volta.
Comentários (3)

Kaffe_og_kjeks
Acho triste que a redação tenha precisado vender a cadeira para o Kjell-Arne tirar férias. Tenho duas cadeiras de cozinha e mando uma com prazer pelo correio. Ela balança um pouco, mas tem boa intenção.

Innflytter_fra_Bergen
Em Bergen nunca teríamos vendido uma cadeira. Lá há cadeiras para todos, e chuva para todas as cadeiras. E 31 graus vocês chamam de primavera? Em casa chamamos isso de uma terça-feira que nunca tivemos. Sinto falta dela.

Hekksaksen
Chuva não é argumento. Cadeira não é sentimento. E um tucano não tem nada que fazer numa escrivaninha. Um pouco de ordem, por favor.
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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.