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Risør ensaia como não fazer alarde da chegada do grande ator

Um dos atores mais famosos do país chega a Risør em 13 de outubro. A cidade decidiu encarar tudo com a maior calma, e vem ensaiando isso duas vezes por dia desde quarta-feira.

Por Mona Lauvland · quinta-feira, 8 de outubro de 2026 às 09h16

Uma senhora de casaco de tweed e boina sentada num banco no porto, com um jornal e uma xícara de café, olhando com esforço para cima e para longe. Atrás dela, um rapaz de bigode e camisa listrada passa de olhos baixos com um cachecol no ombro. Uma gaivota pousada num poste de amarração no cais, e veleiros no porto.
Ensaio geral na quinta de manhã. O dublê conseguiu emprestado o cachecol, mas o sobretudo estava na lavanderia. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

A notícia chegou na quarta de manhã: um dos atores mais conhecidos do país vai subir ao palco em Risør na terça da semana que vem. Às dez da manhã do mesmo dia, uma farmacêutica aposentada (76) já tinha recebido a missão de garantir que a cidade não fizesse alarde.

– A gente não é assim em Risør, diz ela. – Já tivemos gente famosa aqui, e deixamos todos em paz. Só precisa ensaiar um pouquinho.

O Agderpesten pôde acompanhar o ensaio geral na quinta de manhã, no banco no fim da Strandgata, com as casas brancas atrás e o porto à frente. Ela sentou na ponta, com um jornal que não lia e um café que não bebia. Às 9h00 o dublê dobrou a esquina: o zelador do centro cultural, de sobretudo comprido e cachecol, passando devagar de olhos baixos, como fazem os famosos.

A primeira passada não foi boa. Ela olhou. Ela sorriu. Ela disse «não acredito». O zelador parou e perguntou se havia algum problema, e ela teve que admitir que havia. Anotou na margem do jornal e pediu que ele voltasse para a esquina.

O difícil são os detalhes. Não olhar é fácil. Não olhar de um jeito que mostre que você não está olhando exige treino. Por isso ela dividiu a indiferença em três etapas: o olhar para o porto, um aceno discreto que pode muito bem ser para uma gaivota, e um comentário sobre o tempo dirigido a ninguém.

O aceno

O aceno foi o que mais deu trabalho. É um aceno de Risør, explica ela, em uso desde o tempo dos veleiros: o queixo desce meio centímetro, e isso quer dizer ao mesmo tempo «bom dia», «eu sei quem você é» e «não vou contar para ninguém». Na quarta à noite ela ensinou o aceno a 140 moradores numa sala do centro cultural. Três desistiram porque acenavam demais, e um porque não conseguia segurar o nome do filme.

Um salão cheio de gente em cadeiras de madeira, todos baixando a cabeça. Na frente, uma senhora de casaco de tweed e boina com o indicador para cima e o olhar para o alto, ao lado de um homem de cachimbo e uma mulher de óculos. Um homem perto deles se curvou quase ao meio.
Curso de aceno na quarta à noite. O homem mais perto da mesa foi convidado a treinar em casa. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

A segunda passada foi melhor. O zelador dobrou a esquina, ela olhou para o porto, acenou para uma gaivota e disse «parece que o fim de semana vai ser bonito» para o ar. O zelador seguiu em frente. A gaivota não acenou de volta. Foi um momento de Risør autêntico, sem esforço, e levou três horas para chegar lá.

É raro ver uma atuação tão disciplinada fora de um palco. Ela interpreta a indiferença com o corpo, não com o rosto, e põe as pausas onde elas devem estar. Só uma vez se entregou, quando o zelador deixou cair o cachecol e ela se levantou pela metade para pegar.

Ele vai deixar cair alguma coisa. Eles sempre deixam. E aí Risør tem que ficar sentada.

A farmacêutica

– É aí que dá errado, diz ela depois. – Todo mundo nesta cidade já pegou uma luva do chão para alguém. Está na medula.

As instruções estão coladas nas vitrines da Strandgata: não pare, não aponte, não peça autógrafo, não repita falas dos filmes e não fique atrás da cortina, porque as cortinas de Risør são brancas e aparecem bem. O papel tem um tom gentil, e termina dizendo que não é nada demais.

O que o próprio ator acha de uma cidade inteira ensaiando para não notar a presença dele, ninguém sabe. O centro cultural não perguntou. Seria fazer alarde.

Na hora do almoço houve ensaio completo com a Strandgata inteira. Cinquenta pessoas passaram umas pelas outras numa calma total e ensaiada, olhando para o porto. No meio disso apareceu um turista de Oslo com um café num copo de papel. Ganhou onze acenos e um comentário sobre o tempo, e ficou parado se perguntando quem ele era, afinal. Não parou mais de contar a história.

Uma rua de casas brancas de madeira junto ao porto, com gente passando umas pelas outras. No meio da multidão, um homem confuso de cabelo cacheado, terno e sobretudo, segura um copinho de papel e olha por cima do ombro. Ao lado dele, uma mulher sardenta de avental sorri de lado, e à direita uma senhora de boina olha fixamente para os veleiros no porto.
Ensaio completo na hora do almoço. Desde então, o turista já perguntou três vezes no posto de turismo quem ele é. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Os ensaios gerais continuam até terça. A farmacêutica diz que está pronta. Mesmo assim, pretende ficar um tempo no banco depois que o espetáculo acabar, caso ele volte e ela não perceba.

Comentários (4)

  1. Marit Holte

    O do copo de papel não é turista. É de Bærum, tem casa em Risør e vai ficar até terça porque ouviu alguma coisa. Vejo pelo sobretudo. Onze acenos bastam para ele voltar na Páscoa contando a história.

    RADAR DE FORASTEIRO [Médio: Sucesso]

    Copo de papel, Strandgata, outubro. Isso não é turista, Marit. É alguém com casa de veraneio que não voltou para casa depois das férias. Pergunte onde ele mora de verdade.

  2. Ingeborg Tellefsen

    Só quero observar que a farmacêutica ficou três horas com um café que não bebeu. Na visita do rei em 1897 foi igualzinho, e o café ficou para a sociedade histórica depois. Posso ir buscar.

    ELETROQUÍMICA [Fácil: Sucesso]

    Psiu, Ingeborg. Tem um café no banco que ninguém está bebendo. Ninguém vai notar se você pegar. É quase um achado histórico.

  3. Jørn Løke

    Isso é um mecanismo de defesa clássico, Risør. A gente finge não ver aquilo que mais deseja. Reconheço tudo isso. Vou tocar meu single novo na Strandgata na terça, e vocês podem fingir que não estão ouvindo.

    DRAMA [Fácil: Sucesso]

    (Pausa dramática.) Meu senhor, esta é a sua cena. Uma cidade inteira fingindo não ver uma estrela, e ali está você, a estrela que ninguém descobriu ainda. Entre em cena.

  4. Håkon Skjoldal

    Percebo que ninguém respondeu o principal: por que todo mundo em Risør diz que o fim de semana vai ser bonito? Ela disse isso numa quinta, sem conferir. Em Bergen a gente diz que vai chover, e acerta. Isso se chama honestidade.

    RETÓRICA [Lendário: Falha]

    Pegue eles pelo tempo, Håkon. Ninguém respondeu por que aqui o fim de semana sempre vai ser bonito. O ponto fraco está aí. Aponte.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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