Sátira Cultura
Prefeitura manda a jornalista de cultura decidir se o píer é autêntico
A prefeitura de Arendal precisa descobrir se um píer de concreto em Arneviksundet é novo ou só muito bem conservado. O setor de obras não tinha método para isso, e pegou emprestado o da história da arte.
Tudo começou com uma denúncia anônima à prefeitura sobre um possível píer ilegal em Arneviksundet, perto de Eydehavn. O dono diz que é manutenção comum de um píer antigo. O setor de obras vê um píer novo. Os dois têm razão, e é exatamente esse o problema.
– Temos regras para píer novo e regras para píer velho. Não temos regra para píer velho que parece novo. Isso só os museus têm, diz um analista do setor, que na segunda ligou para a redação de cultura perguntando se alguém tinha experiência com restauração.
A que vos escreve foi até lá com lupa, luvas brancas e um cartão-postal antigo do estreito. O píer está ali na luz da tarde, cinza e sereno, como uma obra que sabe que está sendo olhada. O concreto é liso. As bordas são afiadas. É um encontro cru, visceral, entre o passado e a fôrma.
Depois de duas horas de joelhos, achei o que procurava. Na ponta mais distante há um parafuso de amarração enferrujado, provavelmente do fim dos anos cinquenta. Ele é o píer. Todo o resto em volta é, tecnicamente falando, uma interpretação.
A pergunta, portanto, não é se o píer é novo ou velho, mas se ele é fiel à intenção do parafuso. Acho que é. A construção mantém um diálogo silencioso, quase humilde, com a própria origem, como um retábulo depois da quarta repintura. Ninguém chama aquilo de cópia.
O setor de obras ficou menos comovido. O analista anotou que o relatório tinha a palavra «intenção» onze vezes e a palavra «dispensa» nenhuma, e perguntou se então o píer estava aprovado. Isso eu não tenho autoridade para dizer. Só posso dizer que ele é verdadeiro.
A prefeitura agora avalia mandar todos os processos de obras no arquipélago passarem pela redação de cultura. Um museu de arte em Kristiansand já perguntou se o parafuso pode ser emprestado para uma exposição itinerante sobre o modernismo do pós-guerra no sul da Noruega. Não pode. Aí não sobra píer nenhum.
A matéria te fez rir, ou pelo menos sorrir? Aperte a caveira.
Anotado. O editor-chefe chama isso de um avanço para toda a região.
Comentários (3)

Glenn Ove Hansen
Tenho quatro metros cúbicos de concreto de um píer que eu reformei em 2009. Continua original, só está no meu quintal agora. Preço a combinar, respostas com «interessado».
PERCEPÇÃO [Médio: Falha]
Repare que a matéria não diz para onde foi o concreto velho. Quatro metros cúbicos não somem. Alguém está com eles.

Jørn Løke
O parafuso é um clássico objeto abandonado, gente. Tudo ao redor foi trocado e ele só tem que segurar firme e ficar calado. Me identifico. Single novo sexta: «Amarrado (sozinho)».
EMPATIA [Médio: Falha]
Sinta pelo parafuso, Jørn. Setenta anos no mesmo lugar, e tudo em volta foi trocado. Ninguém perguntou como ele está.

Gerd Aanonsen
Meu sobrinho tem vaga de barco em Arneviksundet e diz que todo mundo lá sabe quem mandou a denúncia. Nem pra mim ele quis contar. Então só pode ser alguém da família.
OLHAR DO VIZINHO [Fácil: Falha]
O que vão dizer? Todo mundo no estreito sabe quem mandou aquela denúncia. Finge que você também sabe, senão vai parecer que é a única que não sabe.
Os comentários são moderados automaticamente.
Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.
