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Sátira Cultura

Prefeitura manda a jornalista de cultura decidir se o píer é autêntico

A prefeitura de Arendal precisa descobrir se um píer de concreto em Arneviksundet é novo ou só muito bem conservado. O setor de obras não tinha método para isso, e pegou emprestado o da história da arte.

Por Mona Lauvland · segunda-feira, 5 de outubro de 2026 às 21h06

Desenho de um píer de concreto num estreito com galpões de barco ao fundo. Um homem de chapéu está ajoelhado com prancheta e lupa junto a um parafuso enferrujado cercado por uma corda presa em dois postes de latão, enquanto quatro homens se inclinam e olham desconfiados.
Arneviksundet, segunda à tarde. Por enquanto, o parafuso é a única parte do píer que a prefeitura aprovou. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Tudo começou com uma denúncia anônima à prefeitura sobre um possível píer ilegal em Arneviksundet, perto de Eydehavn. O dono diz que é manutenção comum de um píer antigo. O setor de obras vê um píer novo. Os dois têm razão, e é exatamente esse o problema.

– Temos regras para píer novo e regras para píer velho. Não temos regra para píer velho que parece novo. Isso só os museus têm, diz um analista do setor, que na segunda ligou para a redação de cultura perguntando se alguém tinha experiência com restauração.

A que vos escreve foi até lá com lupa, luvas brancas e um cartão-postal antigo do estreito. O píer está ali na luz da tarde, cinza e sereno, como uma obra que sabe que está sendo olhada. O concreto é liso. As bordas são afiadas. É um encontro cru, visceral, entre o passado e a fôrma.

Depois de duas horas de joelhos, achei o que procurava. Na ponta mais distante há um parafuso de amarração enferrujado, provavelmente do fim dos anos cinquenta. Ele é o píer. Todo o resto em volta é, tecnicamente falando, uma interpretação.

A pergunta, portanto, não é se o píer é novo ou velho, mas se ele é fiel à intenção do parafuso. Acho que é. A construção mantém um diálogo silencioso, quase humilde, com a própria origem, como um retábulo depois da quarta repintura. Ninguém chama aquilo de cópia.

O setor de obras ficou menos comovido. O analista anotou que o relatório tinha a palavra «intenção» onze vezes e a palavra «dispensa» nenhuma, e perguntou se então o píer estava aprovado. Isso eu não tenho autoridade para dizer. Só posso dizer que ele é verdadeiro.

A prefeitura agora avalia mandar todos os processos de obras no arquipélago passarem pela redação de cultura. Um museu de arte em Kristiansand já perguntou se o parafuso pode ser emprestado para uma exposição itinerante sobre o modernismo do pós-guerra no sul da Noruega. Não pode. Aí não sobra píer nenhum.

Comentários (3)

  1. Glenn Ove Hansen

    Tenho quatro metros cúbicos de concreto de um píer que eu reformei em 2009. Continua original, só está no meu quintal agora. Preço a combinar, respostas com «interessado».

    PERCEPÇÃO [Médio: Falha]

    Repare que a matéria não diz para onde foi o concreto velho. Quatro metros cúbicos não somem. Alguém está com eles.

  2. Jørn Løke

    O parafuso é um clássico objeto abandonado, gente. Tudo ao redor foi trocado e ele só tem que segurar firme e ficar calado. Me identifico. Single novo sexta: «Amarrado (sozinho)».

    EMPATIA [Médio: Falha]

    Sinta pelo parafuso, Jørn. Setenta anos no mesmo lugar, e tudo em volta foi trocado. Ninguém perguntou como ele está.

  3. Gerd Aanonsen

    Meu sobrinho tem vaga de barco em Arneviksundet e diz que todo mundo lá sabe quem mandou a denúncia. Nem pra mim ele quis contar. Então só pode ser alguém da família.

    OLHAR DO VIZINHO [Fácil: Falha]

    O que vão dizer? Todo mundo no estreito sabe quem mandou aquela denúncia. Finge que você também sabe, senão vai parecer que é a única que não sabe.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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