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Sátira Cultura

A surpresa em Vegårshei volta em cartaz, e a plateia já sabe as falas

A loteria voltou a Vegårshei na quarta-feira e dividiu um prêmio milionário entre sete ganhadores. Nossa jornalista de cultura assistiu à remontagem da terceira fila, atrás da plataforma de leite.

Por Mona Lauvland · quarta-feira, 7 de outubro de 2026 às 13h06

Desenho: Um apresentador sorridente e um ganhador de camisa listrada e cachimbo seguram juntos um grande cheque de papelão em branco numa escada de entrada. Atrás deles, um cinegrafista com câmera e balões. À esquerda, dois homens em cadeiras dobráveis com xícaras de café assistem, com mais gente do vilarejo atrás. Uma mulher de lenço na cabeça, num arbusto florido ao lado da porta, sussurra com a mão na boca.
Terceira fila, atrás da plataforma de leite. O lugar era de graça, mas o café cada um trazia o seu. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Não é fácil surpreender uma plateia que já viu a peça. Quando o elenco da loteria chegou a Vegårshei na quarta de manhã, com equipe de filmagem, balões e um cheque de papelão do tamanho de uma porta de celeiro, já havia gente na beira da estrada com xícara de café. Alguns trouxeram cadeira dobrável.

A montagem segue a forma clássica: a campainha, a pausa longa, a porta que se abre, o apresentador com o cheque. É um texto que o vilarejo conhece bem. Na primeira porta, o vizinho na escada ao lado disse «não acredito!» em coro com o ganhador, e levou um olhar demorado da direção.

Na terceira porta, uma ponto da associação de mulheres do vilarejo estava escondida no arbusto de lilás e soprou «ai, mas isso a gente nunca imaginou» para uma ganhadora que tinha esquecido a fala. Foi o momento mais bonito do dia, e ninguém na plateia fingiu que não ouviu.

As férias de outono esvaziaram a sala

A data foi ousada. No meio das férias de outono, várias casas estavam vazias, e o elenco encenou a surpresa com entrega total para dois capachos e uma caixa de correio. É nessas horas que se vê quem é profissional. Os balões continuaram lá no alto.

Os objetos de cena são os mesmos da última vez, e isso é uma escolha consciente. O cheque de papelão ganhou uma ponta amassada desde a última apresentação, e a carrega com dignidade. O carro com laço é o grande gesto cenográfico da peça: chegou rodando no último ato, e um senhor junto à plataforma de leite se levantou e aplaudiu antes de o carro estacionar.

– A gente sabia que o carro vinha. Só não sabia pra quem. É isso que mantém a emoção, diz um espectador aposentado que viu todas as montagens da mesma cadeira dobrável, e que nunca ganhou nada.

Não é uma apresentação sem falhas. A surpresa ficou tão conhecida que perdeu parte do nervosismo na soleira, e na quinta porta o ganhador abriu antes de tocarem a campainha. Mas ela se sustenta na fé do elenco no material, e isso é mais do que se pode dizer de muita coisa que entra em cartaz na cidade.

Depois da última porta, o elenco ficou parado no pátio do salão comunitário esperando os aplausos. Eles não vieram. A plateia tinha entrado em casa para ensaiar para o ano que vem.

Comentários (6)

  1. Tarjei Kvipt

    Ficou no arbusto, sem levantar a voz,
    soprou a fala quando o ganhador esqueceu.
    Em Fyresdal teríamos gritado a sós,
    ali na porta, sonhando o que nunca se deu.

    DRAMA [Trivial: Sucesso]

    (Pausa. A luz cai sobre o arbusto de lilás.) Ali, meu senhor, está a verdadeira protagonista do dia: a que sabe o texto e nunca é vista. Dê a ela uns versos.

    1. Wenche Olsen (72)

      Que lindo, Tarjei. Só fico pensando no que ganhou o carro de quebra. Ele vai estacionar lá fora, e os outros seis vão ter que passar na frente todo dia. Não é fácil ganhar um pouquinho menos que o vizinho. Não digo mais nada.

      LEI DE JANTE [Formidável: Falha]

      Wenche. Sete ganhadores, e um ainda levou um carro. Esse carro vai ficar em algum lugar. Vai ficar onde todo mundo vê, e você sabe quem vai comentar.

  2. Ragnhild Omdal

    ERIK ISSO NÃO É PRA VOCÊ. A VOVÓ PERGUNTOU SE A GENTE PARTICIPA DESSA LOTERIA E A MOÇA DISSE QUE É O CEP QUE DECIDE. NÃO VAMOS NOS MUDAR PRA VEGÅRSHEI POR CAUSA DE UM CARRO. TALVEZ ANO QUE VEM. BEIJO VOVÓ

    LEI DE JANTE [Médio: Falha]

    Ragnhild. Um carro de quebra, e pra quem? Não pra você. É sempre a mesma coisa. Quem já tem, ganha carro, e você ganha balão na TV.

  3. Vibeke Lund-Aasen

    Mandei uma candidatura pra loteria para ser ponto no próximo sorteio. Tenho doze anos de experiência no salão do vilarejo, arbusto próprio e um sussurro que já chegou ao último banco da casa de oração de Mykland. Ainda não responderam, mas já comecei a ensaiar na cerca viva.

    DRAMA [Fácil: Falha]

    (Mão no peito.) Senhora. O arbusto de lilás. Aquele papel era seu. Quem mais em Agder sussurra uma fala que chega na terceira fila? Inscreva-se. Agora. Antes que achem outro arbusto.

    1. Tom-Erik Haugen

      Vibeke, você vai ser um arbusto maravilhoso. Mas deixa eu falar do cheque. A ponta está amassada e ninguém tentou esconder. Isso pra mim é vulnerabilidade no palco. O Ståle viu a foto e disse «isso já esteve num porta-malas». Vindo dele, é uma lágrima. O júri de Hisøy põe o cheque em primeiro lugar, e os dois gatos votaram igual.

      PERCEPÇÃO [Trivial: Sucesso]

      Repare na ponta do cheque, Tom-Erik. Está amassada. Ninguém desamassou. Alguém carregou esse cheque durante um inverno inteiro.

  4. Kommunikasjonsrådgiveren

    A prefeitura registrou que houve um evento em Vegårshei. Vegårshei é outro município. Desejamos boa sorte aos vizinhos e lembramos que as cadeiras dobráveis municipais são emprestadas no balcão de atendimento mediante recibo.

    CALMA SULISTA [Lendário: Sucesso]

    Respire. Nada disso é com a prefeitura. A loteria veio, a loteria foi. Vai dar certo, e já deu.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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