Sátira Cultura
O orçamento nacional virou novela, e Arendal ficou nos bastidores
O governo apresenta o orçamento nacional na quarta, mas vem soltando tudo em capítulos há mais de uma semana. Nossa jornalista de cultura fez a crítica dos vazamentos e acompanhou o público na recepção da prefeitura, esperando a cidade ganhar uma fala.
O governo apresenta o orçamento nacional na quarta. Mesmo assim, a peça está sendo exibida em capítulos há mais de uma semana: toda manhã um ministério solta uma cena para a imprensa, um bilhão aqui, uma reforma ali, e o público já viu quase tudo antes de a cortina subir. A que vos escreve nunca fez a crítica de uma obra cujo enredo já é conhecido e cuja estreia é mera formalidade. Por isso, fiz a crítica dos vazamentos.
A forma é crua, visceral. Cada capítulo é curto, chega sem aviso e termina com um ministro sorrindo numa escadaria. É folhetim no sentido clássico, como os jornais de antigamente publicavam romances em pedaços para vender o número seguinte. O fato de quem vaza e quem deveria guardar o segredo serem a mesma pessoa dá à obra uma duplicidade que raramente vi num palco de Arendal.
O público está envolvido. Na recepção da prefeitura há uma telinha que mostra cada novo vazamento. Na segunda, doze pessoas estavam diante dela, com café em copo de papel e de casaco. Esperavam uma coisa só: que Arendal ganhasse uma fala.
Não aconteceu. A cidade é a figurante silenciosa da peça, presente em todas as cenas e nunca mencionada. Li tudo com lupa. A palavra «as regiões» aparece uma vez, numa oração subordinada. Um aposentado diante da tela achou que era a gente. Outro achou que era Grimstad, e foi para casa.
– A prefeitura acompanha os vazamentos de perto e vai comentar o orçamento quando ele terminar de vazar, diz a Assessoria de Comunicação, parada atrás do público desde sexta com um comunicado pronto cujo título está em branco.
Em Kristiansand, dizem, ganharam duas falas e um monólogo curto. Isso diz mais sobre a direção do que sobre nós. Papel grande não é o mesmo que papel bom, e ninguém jamais foi a Kristiansand pelos diálogos.
Nota cinco. O grande golpe vem na quarta, quando o orçamento for apresentado e não houver mais nada para apresentar. A prefeitura reservou a primeira fila inteira mesmo assim, caso Arendal apareça no bis.
A matéria te fez rir, ou pelo menos sorrir? Aperte a caveira.
Anotado. O editor-chefe chama isso de um avanço para toda a região.
Comentários (4)

Abdirahman Warsame
Irmão, tô nem aí pro orçamento. O navio real não aparece em Pollen desde junho, e ninguém na prefeitura botou uma telinha sobre isso.
AUTORIDADE [Trivial: Sucesso]
Você não fica na fila por um orçamento, soldado. Você fica em POLLEN. O navio real não manda notícia há três semanas. DESCUBRA POR QUÊ.

Vibeke Lund-Aasen
A cena da escadaria é um teste aberto, Mona. Já mandei ao ministério um pedido para montar os vazamentos na casa de oração, comigo de ministro e o coral fazendo a imprensa. Estreia quinta.
DRAMA [Médio: Falha]
(Pausa dramática. Ela se levanta na plateia.) Senhora, um ministro sorrindo numa escadaria não é um final – é um convite. Eles querem uma montagem local. Ligue para eles.

Frøydis Aasland
Doze pessoas esperando Oslo dizer o nosso nome. Isso diz mais sobre nós do que sobre o orçamento. Só pra constar.
LEI DE JANTE [Fácil: Sucesso]
Doze adultos na frente de uma tela. Quem eles pensam que são? Quem essa cidade pensa que é?

Gerd Aanonsen
Eu sei quem eram quatro dos doze, e dois são meus parentes. O que foi pra casa achando que era Grimstad é um cunhado. Ele sempre foi assim.
OLHAR DO VIZINHO [Médio: Sucesso]
Quem estava lá, afinal? Doze pessoas. Você conhece pelo menos oito. Diga antes que alguém diga.
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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.
