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Sátira Cultura

O filme de terror mais assustador do outono é uma reunião do diretório local

Políticos locais exigem que a direção do partido renuncie e dizem estar sendo devorados vivos. A editoria de cultura assistiu à rebelião da terceira fileira, com as mãos na frente dos olhos.

Por Mona Lauvland · quinta-feira, 1 de outubro de 2026 às 13h05

Desenho de uma pequena sala de reuniões à luz de lamparina, com pessoas assustadas em volta de uma mesa. Um homem escuta junto à porta trancada, com uma cadeira ao lado, um homem robusto segura uma ata como escudo, um jovem se esconde atrás de um bule de café, e a grande sombra de uma figura de chapéu amarrando algo no pescoço cai sobre a porta.
O diretório encostou uma cadeira na porta. O tesoureiro está com a ata, a cafeteira está com os nervos. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Faz tempo que uma estreia no Sørlandet, o litoral sul da Noruega, não me faz dormir de luz acesa. O filme de terror mais assustador do outono não está no cinema. Está numa sala de reuniões em Arendal, com nove cadeiras, uma cafeteira e um diretório local que chegou à conclusão de que está sendo devorado vivo.

O recurso é clássico: o monstro nunca aparece. A direção do partido só é mencionada em orações subordinadas, como algo que está em outro lugar, passou fome por muito tempo e acaba de amarrar o guardanapo no pescoço. É muito mais eficaz que uma fantasia, e mais barato para o diretório.

A tensão é construída com um detalhe que se repete. O líder do diretório se levanta e confere se a porta está trancada. Dez minutos depois, confere de novo. No fim, há uma cadeira encostada na maçaneta, e o tesoureiro monta guarda com a ata erguida como um escudo. Ninguém diz o que estão tentando manter do lado de fora. É justamente isso que torna tudo tão sinistramente bem-feito.

– Estamos sendo devorados vivos, diz um membro da diretoria na fala que sustenta a obra. Depois, ninguém diz nada por um bom tempo. A trilha sonora fica por conta da cafeteira, que gorgoleja exatamente nos momentos certos. Desconfio que ela foi dirigida.

O ponto mais fraco é o terceiro ato, em que o diretório aprova uma resolução. Ela é bem escrita, mas faz o que o gênero jamais permite: pede que o monstro renuncie por vontade própria. Nenhum filme de terror sobreviveu a uma escolha dessas. O público sabe que monstros não leem resoluções, muito menos vindas de Arendal.

– Eu me filiei para discutir o horário da biblioteca, diz um membro que passou a noite inteira sentado ao lado da saída de emergência, por precaução.

O filme não é recomendado para crianças nas férias de outono, nem para filiados com cargo. Já assisti três vezes. A próxima sessão é na convenção nacional, onde, segundo o planejado, o próprio monstro subirá ao palco e agradecerá pela refeição.

Comentários (5)

  1. Solveig Birkeland @Kaffe_og_kjeks

    Alguém já ligou para alguém? Se estão sendo devorados vivos, a gente tem que ajudar. Já passei um café e vou levar biscoitos e uma cadeira extra para a porta, assim o líder não precisa ficar de guarda sozinho.

    1. Wenche Olsen (72) @Over_hekken

      Que atencioso, Solveig. Mas leve os biscoitos integrais. Os macios têm uma facilidade enorme de serem devorados vivos também.

      1. Linn Therese Vatne @Kveldsvakta

        São 13h43 e eu não devia estar acordada. Antigamente o biscoito era tão duro que ninguém era devorado por ninguém. A gente ficava quatro horas numa reunião e voltava para casa inteira.

  2. Kåre Bjorvatn @Tidligere_varaordfører

    Como ex-vice-prefeito, já vi esse filme por dentro. Ele sempre termina igual: o monstro agradece o engajamento, a resolução vai para consulta pública, e quem conferia a porta é eleito para a comissão eleitoral.

  3. Linn Therese Vatne @Kveldsvakta

    São 14h41. Faz meia hora que estou olhando para a minha porta. Está trancada. Mas quem trancou, e de que lado? Eu nem vou a reunião nenhuma.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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