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Sátira Cultura

Crítica: A greve dos maquinistas lota as plataformas – mas o enredo nunca chega

O novo ato do fim de semana trouxe uma proposta que ninguém na plateia pôde ver, e uma fala que pesa mais a cada vez que é dita. A editoria de cultura assistiu ao espetáculo do banco da estação de Arendal.

Por Mona Lauvland · segunda-feira, 28 de setembro de 2026 às 07h06

Desenho de uma plataforma de trem arrumada como um teatro: fileiras de cadeiras e bancos com viajantes sérios de casaco e chapéu, vários com garrafa térmica, voltados para trilhos vazios que somem num bosque de pinheiros. Uma cortina de teatro pende sobre os trilhos junto a um poste de luz, e uma placa vazia pende sobre a plataforma. Na frente está sentada uma mulher com estola de plumas, a mão no peito e um caderno no colo.
A plateia da estreia na estação de Arendal. Depois de três horas houve aplausos, quando alguém achou ter ouvido um trem. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Não é todo outono que o Sørlandet, o litoral sul da Noruega, ganha um espetáculo que exige tanto da plateia. A greve dos maquinistas, em cartaz há um bom tempo e em ritmo variável, trouxe no fim de semana o que muitos esperavam: uma proposta. Ninguém na plateia pôde vê-la.

O enredo é enganosamente simples. Duas partes estão sentadas numa sala. Uma apresenta uma proposta, a outra responde que ela não foi receptiva o bastante. Então as luzes se apagam, e o público fica sabendo do resto por um comunicado à imprensa na segunda de manhã. O recurso lembra a tragédia grega, em que tudo o que importa acontece fora de cena e só recebemos o relato de um mensageiro.

E que plateia. Assisti ao espetáculo da plataforma da estação de Arendal, onde ele está em cartaz com casa cheia desde a estreia. Ninguém saiu da sala. Também não havia com o que sair.

– Vim aqui para pegar o trem para Kristiansand, mas fiquei pelas falas, diz uma mulher com uma garrafa térmica, que já viu o espetáculo onze vezes e ainda não sabe como ele termina.

A cenografia é corajosa em sua sobriedade: dois trilhos que somem na floresta, um banco e um painel de partidas que mostra «cancelado» em letras amarelas. O painel impressiona especialmente. Ele tem uma única fala, e a entrega com uma calma monumental que raramente vi num palco norueguês. Não esqueceu o texto uma única vez.

A fala «não foi receptiva o bastante» se repete ao longo de toda a obra, e a cada vez ganha mais peso. Na primeira, é uma posição de negociação. Na terceira, é uma filosofia de vida. Quando um condutor, no intervalo, a disse para uma máquina que se recusava a lhe dar café, senti algo se soltar no peito.

Pode-se objetar que o espetáculo é longo. O público fiel da linha do Sørlandet lembra, porém, que já viu coisas mais longas no mesmo palco sem greve nenhuma, e que esta ao menos tem roteiro.

Se haverá um terceiro ato, ninguém sabe. O espetáculo não tem data de encerramento, e as partes não revelam quem terá a última fala. Reservei meu lugar no banco pelo resto da temporada. É, no sentido mais literal da palavra, implacável.

Comentários (3)

  1. Båtplasskøen_2003

    Se isso é teatro, devia cobrar ingresso. Pago taxa de lista de espera por vaga de barco em Arendal há 23 anos sem ver nada, então a plataforma é uma pechincha. Para quem eu mando a fatura?

    1. Seilern_Tromøy

      Não é nada demais essa história da vaga, viu. Você tem três barcos. Eu só tenho um, e ele está muito bem amarrado.

  2. Innflytter_fra_Bergen

    Em Bergen a gente tinha espera que significava alguma coisa. Quando eu pegava a linha de Bergen na juventude, ficava na plataforma de Voss na chuva e sabia que estava vivo. Isto aqui é uma cópia pálida do sul, com sol.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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