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Sátira Cultura

O lançamento mais forte do ano no Sul da Noruega é um regulamento para armadilhas de lagosta

A Guarda Costeira já apreendeu equipamento de pesca antes mesmo de a temporada da lagosta começar, e espera que as novas regras facilitem pescar dentro da lei. Nós lemos as regras. Fazia tempo que um texto não segurava tanta coisa.

Por Mona Lauvland · quarta-feira, 30 de setembro de 2026 às 23h08

Desenho de pescadores de capa de chuva sentados em caixotes num píer, diante de um púlpito com um livro grosso. Um pescador idoso mede a abertura de uma armadilha de lagosta com uma trena dobrável, um mais jovem levanta a mão.
Leitura em voz alta em Tromøy na noite de quarta. O homem da primeira fila mediu a mesma abertura quatro vezes e não chegou a nenhuma conclusão nova. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

É raro um texto ter a coragem de ser tão pouco acolhedor com o leitor. O regulamento da pesca da lagosta, que vale a partir do momento em que os barquinhos saem na quinta de manhã, não abre com uma explicação, mas com a definição do que é uma armadilha. São onze linhas. Li três vezes e continuo sem saber se tenho uma.

Depois vêm as aberturas de fuga, e aqui o texto está no seu momento mais poético. Uma abertura deve ser grande o bastante para que quem não deve ficar possa ir embora, e pequena o bastante para que quem deve ficar, fique. É uma frase que podia abrir um romance dinamarquês sobre casamento. Aqui ela está num anexo.

A Guarda Costeira diz esperar que as regras tornem mais fácil pescar dentro da lei. É um desejo modesto para uma obra desse porte. Ninguém nunca leu Ibsen e pensou que agora a vida ficou mais fácil. Mas é justamente na resistência que o texto fica cru.

Na noite de quarta, li trechos escolhidos em voz alta num píer em Tromøy, para uma plateia de pescadores amadores esperando o dia seguinte. Ouviram em silêncio. No trecho sobre a marcação das boias, um senhor de capa de chuva levantou a mão e perguntou se aquilo ia cair na prova. Outro pegou a armadilha dele e mediu a abertura de fuga com uma trena enquanto eu lia, e a colocou de volta no barco sem dizer nada. É assim que a grande arte funciona.

O ponto fraco é o final. Depois de quarenta páginas de tamanhos mínimos, número de armadilhas e áreas protegidas, o texto termina de repente, sem que a gente saiba o que acontece com a lagosta. Ela está presente em todas as páginas, mas nunca diz uma palavra. Ou é um golpe de gênio ou é um descuido, e o autor, que é um regulamento, não quis comentar.

A Guarda Costeira já anunciou uma edição revisada para o próximo outono, com mais trechos e aberturas mais estreitas. Já fiz a pré-venda. Nota: cru, com abertura de fuga.

Comentários (4)

  1. Ingeborg Tellefsen @Lokalhistorikeren

    O primeiro regulamento da lagosta em Arendal foi escrito em 1897 e tinha uma página. Dizia que era para estar em casa na hora do jantar. A sociedade histórica guarda numa caixa de sapato, e ninguém nunca o descumpriu.

  2. Marit Holte @Hyttevertinna_Lyngør

    Do píer eu vejo quem leu o regulamento. Quem leu está medindo a armadilha. Quem não leu está de capa de chuva nova com a etiqueta ainda pendurada. Deixei uma trena extra na casa de barcos.

  3. Håkon Skjoldal @Innflytter_fra_Bergen

    Em Bergen não temos aberturas de fuga, temos guarda-chuvas. Aliás, reparei que a crítica está em cultura e não em mar. Isso nunca aconteceria em Bergen, onde cultura e mar são o mesmo departamento e os dois vivem molhados.

  4. Caspar Wilhelmsen-Lie @Hyttefolk_Frogner

    Quarenta páginas de graça? Paguei 4000 coroas num curso de lagosta no verão e recebi doze páginas e uma taça de vinho branco. Ou o regulamento está barato demais, ou o vinho estava.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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