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Sátira Opinião

Converti o índice de alimentos da ONU em pãezinhos de canela. Nada subiu

Os preços mundiais dos alimentos estão no nível mais alto em quase quatro anos, diz a ONU. O padeiro Tor-Ivar Hvetland revisou os números às quatro da manhã, enquanto a massa crescia, e chegou a outro resultado.

Por Tor-Ivar Hvetland · sexta-feira, 2 de outubro de 2026 às 13h10

Desenho de um padeiro de avental em cima de um banquinho, escrevendo longas contas com giz numa porta de madeira, com um pão de canela na mão. Atrás dele a massa cresce numa gamela, e na mesa há um pacotinho amarrado com barbante.
A padaria às quatro da manhã. A conta fechou na quinta linha; a massa, na quarta. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Li ontem que os preços dos alimentos no mundo estão no nível mais alto em quase quatro anos. Diz que é por causa da logística e do clima. Não vou dizer que a ONU está errada. Vou dizer que a ONU calcula na moeda errada.

Na nossa padaria fazemos pão há quatro gerações, e há quatro gerações um pãozinho de canela custa exatamente um pãozinho de canela. Nunca subiu. Nem na guerra, nem na crise do petróleo, nem no ano passado, quando a canela ficou tão cara que a gente trancava à noite. Um pão, um pão. É o preço mais estável de Arendal, e ninguém da ONU ligou para perguntar como a gente consegue.

Por isso converti o índice da ONU. Uma tonelada de trigo custa hoje uns 1.900 pãezinhos de canela. Só que com uma tonelada de trigo eu faço uns 1.900 pãezinhos de canela. Ou seja, o trigo custa aquilo em que ele vira. Isso não é aumento de preço. É um ciclo, e é assim desde que meu bisavô ficava no mesmo forno fazendo a mesma conta, com giz, na mesma porta.

O mesmo vale para o açúcar, a manteiga e os ovos. Tudo custa aquilo em que vira, desde que você tenha paciência de fazer a conta até o fim. Por isso peço à ONU que adote o padrão-pãozinho. Mandei uma carta e um saquinho para degustação, e pedi que não guardem o saquinho na gaveta.

A única coisa que subiu no centro foram os tênis do outro lado da minha parede. Hoje custam 74 pãezinhos de canela o par. Quatro anos atrás custavam 61. Não digo isso para falar do vizinho. Digo porque números são números, e porque o cheiro de pão que atravessa a parede dele toda manhã continua de graça.

Por esse cheiro eu nunca vou cobrar. É um bem público. Mas comecei a anotar, em pãezinhos de canela, para que a ONU tenha os números prontos no dia em que perguntar.

Tor-Ivar Hvetland, padeiro de quarta geração

Comentários (3)

  1. Ragnhild Omdal @MORMOR_PÅ_NETT

    TOR-IVAR ESSE É O MELHOR TEXTO QUE JÁ LI NO JORNAL. CALCULEI QUE MINHA APOSENTADORIA DÁ 4.112 PÃEZINHOS POR MÊS E NUNCA ME SENTI TÃO RICA. VOU PAGAR PARA A KAFFE_OG_KJEKS QUANDO A GENTE FINALMENTE SE ENCONTRAR. BEIJOS VOVÓ

    1. Thea Marie Aamodt @Dagens_antrekk

      Ragnhild, 4.112 pães é muita coisa. Eu estava na frente da padaria hoje cedo para tirar uma foto e vi que tem mesmo números de giz na porta. Pequenos, tortos, lá no cantinho de cima. Fundo lindo, aliás.

      1. Måka @Pollenmåka

        Giz na porta não é contabilidade. É uma lista. Ele conta pães, mas também conta quem pega da bandeja lá fora. Eu já vi ele olhando para mim.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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