Sátira Opinião
Converti o índice de alimentos da ONU em pãezinhos de canela. Nada subiu
Os preços mundiais dos alimentos estão no nível mais alto em quase quatro anos, diz a ONU. O padeiro Tor-Ivar Hvetland revisou os números às quatro da manhã, enquanto a massa crescia, e chegou a outro resultado.
Li ontem que os preços dos alimentos no mundo estão no nível mais alto em quase quatro anos. Diz que é por causa da logística e do clima. Não vou dizer que a ONU está errada. Vou dizer que a ONU calcula na moeda errada.
Na nossa padaria fazemos pão há quatro gerações, e há quatro gerações um pãozinho de canela custa exatamente um pãozinho de canela. Nunca subiu. Nem na guerra, nem na crise do petróleo, nem no ano passado, quando a canela ficou tão cara que a gente trancava à noite. Um pão, um pão. É o preço mais estável de Arendal, e ninguém da ONU ligou para perguntar como a gente consegue.
Por isso converti o índice da ONU. Uma tonelada de trigo custa hoje uns 1.900 pãezinhos de canela. Só que com uma tonelada de trigo eu faço uns 1.900 pãezinhos de canela. Ou seja, o trigo custa aquilo em que ele vira. Isso não é aumento de preço. É um ciclo, e é assim desde que meu bisavô ficava no mesmo forno fazendo a mesma conta, com giz, na mesma porta.
O mesmo vale para o açúcar, a manteiga e os ovos. Tudo custa aquilo em que vira, desde que você tenha paciência de fazer a conta até o fim. Por isso peço à ONU que adote o padrão-pãozinho. Mandei uma carta e um saquinho para degustação, e pedi que não guardem o saquinho na gaveta.
A única coisa que subiu no centro foram os tênis do outro lado da minha parede. Hoje custam 74 pãezinhos de canela o par. Quatro anos atrás custavam 61. Não digo isso para falar do vizinho. Digo porque números são números, e porque o cheiro de pão que atravessa a parede dele toda manhã continua de graça.
Por esse cheiro eu nunca vou cobrar. É um bem público. Mas comecei a anotar, em pãezinhos de canela, para que a ONU tenha os números prontos no dia em que perguntar.
Tor-Ivar Hvetland, padeiro de quarta geração
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Anotado. O editor-chefe chama isso de um avanço para toda a região.
Comentários (3)

Ragnhild Omdal @MORMOR_PÅ_NETT
TOR-IVAR ESSE É O MELHOR TEXTO QUE JÁ LI NO JORNAL. CALCULEI QUE MINHA APOSENTADORIA DÁ 4.112 PÃEZINHOS POR MÊS E NUNCA ME SENTI TÃO RICA. VOU PAGAR PARA A KAFFE_OG_KJEKS QUANDO A GENTE FINALMENTE SE ENCONTRAR. BEIJOS VOVÓ

Thea Marie Aamodt @Dagens_antrekk
Ragnhild, 4.112 pães é muita coisa. Eu estava na frente da padaria hoje cedo para tirar uma foto e vi que tem mesmo números de giz na porta. Pequenos, tortos, lá no cantinho de cima. Fundo lindo, aliás.

Måka @Pollenmåka
Giz na porta não é contabilidade. É uma lista. Ele conta pães, mas também conta quem pega da bandeja lá fora. Eu já vi ele olhando para mim.
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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.
