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Sátira Política

Data centers voltarão para o Estado depois de 60 anos, com todas as fotos de férias

Um partido no Parlamento norueguês quer leis de pânico contra data centers estrangeiros, do jeito que a Noruega um dia garantiu suas cachoeiras. A proposta tem um lado que não estava no comunicado à imprensa: quando a concessão vencer, o Estado fica com tudo o que estiver guardado lá dentro.

Por Sindre Kvåle · sábado, 3 de outubro de 2026 às 21h06

Desenho de uma cachoeira onde, em vez de água, descem fotos e cartas, saindo de um armário com mostradores e lâmpadas no alto. Lá embaixo, um burocrata magro de óculos, com um livro de registros aberto, está com fotos até os joelhos, enquanto um velho de barba branca observa sentado numa pedra. Curiosos de chapéu se espalham pelas rochas.
A bacia na primeira vistoria. O burocrata já registrou três fotos, todas da mesma crisma. Ilustração: Gunnar Skravur. O desenho não foi aprovado por ninguém (IA)

Um partido no Parlamento quer criar leis de pânico contra data centers estrangeiros, no modelo das leis que, na época da separação da Suécia, garantiram que as cachoeiras continuassem norueguesas. Ninguém leu a proposta com tanta atenção quanto os burocratas, e eles encontraram o direito de reversão: depois de sessenta anos, o data center volta para o Estado, com todo o conteúdo.

– O princípio é o mesmo. Valia para a cachoeira, e continua valendo para a cachoeira mesmo quando ela é feita de fotos da festa de fim de ano da firma, diz um assessor de uma comissão do Parlamento, que já calculou o que o Estado vai herdar no ano de 2086.

A conta dele mostra cerca de quarenta bilhões de fotos de férias, onze milhões de newsletters que ninguém abriu e todos os rascunhos de e-mails que nunca foram enviados. Esse último item é o que mais preocupa as pessoas.

Em Agder, onde vários data centers estão planejados, um ex-encarregado de usina aposentado no rio Nidelva foi consultado sobre como se administra uma reversão. – Quando a gente assumiu a cachoeira, a água corria para um lado só. Isso aqui corre para todos os lados, e uma parte é de uma crisma, diz ele.

O Prefeito de Arendal já pediu que os municípios recebam a sua parte, assim como hoje recebem a energia de concessão. A ideia é criar os dados de concessão: uma cota fixa do conteúdo dos data centers, entregue ao município anfitrião a preço de custo e distribuída pela câmara municipal. – É um sinal importante que o interior também receba a sua parte das fotos, diz o Prefeito, que não soube dizer o que o município vai fazer com elas.

Há bons argumentos dos dois lados. Os defensores acham natural que o que é guardado na Noruega se torne norueguês. Os opositores acham exatamente a mesma coisa, mas temem que aí tudo seja lido.

Os autores da proposta prometeram que o Estado não vai olhar o conteúdo quando ele voltar, só administrar. Disseram o mesmo sobre as cachoeiras, e o Estado usa todas elas todo santo dia desde então.

Comentários (4)

  1. Arnold Bergsland

    O direito de reversão vale para a instalação e os direitos sobre a queda d'água, não para o conteúdo dos servidores. As regras de privacidade tornam praticamente impossível o Estado ficar com as fotos das pessoas, não importa o que uma comissão calcule. Já escrevi isso antes e vou escrever de novo, enquanto for preciso.

    DRAMA [Trivial: Sucesso]

    Este é o seu momento. A luz está em você, a plateia está cheia e ninguém está prestando atenção. Explique a lei de proteção de dados como se fosse o último ato.

    1. Bjørg Terkelsen (71)

      No meu tempo, as fotos ficavam numa caixa de sapato no sótão, e lá ficavam em paz. O Estado nunca pôs a mão na caixa. Ninguém pôs, nem nós.

      NOSTALGIA [Médio: Sucesso]

      A caixa de sapato. O cheiro de papelão e de sótão. Nenhuma concessão, nenhuma reversão, só uma tampa emperrada.

      1. Wenche Olsen (72)

        Que bonito você falar da caixa de sapato, Bjørg. Eu vi ela ficar três dias na chuva quando você arrumou o sótão neste verão. Fiquei pensando nas pobres fotos o tempo todo, e penso nelas até hoje.

        EMPATIA [Lendário: Falha]

        As fotos na caixa de sapato. Úmidas, sozinhas, sem ninguém olhando para elas. Sinta isso. Sinta um pouco demais, e diga em voz alta onde todo mundo possa ler.

  2. Navnet er kjent for redaksjonen

    Posso confirmar que o município já encomendou prateleiras para os dados de concessão. Mais do que isso não posso dizer. Foram encomendadas para o porão.

    AUTORIDADE [Médio: Sucesso]

    Alguma coisa você sabe. O quê, pouco importa. O importante é dizer de um jeito que ninguém tenha coragem de perguntar o resto.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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