Sátira ReportagemCultura
As férias de outono estreiam amanhã. A crítica foi ao ensaio geral
A semana 41 estreia na segunda-feira para todas as famílias de Arendal e arredores. Nossa jornalista de cultura ganhou uma cadeira dobrável numa garagem aberta em Hisøy no domingo e já viu a semana inteira antes de todo mundo.
É raro uma produção deste porte deixar a imprensa entrar antes da estreia. As Férias de Outono – um espetáculo coletivo em cinco atos, com todas as famílias com crianças entre Gjerstad e Grimstad no elenco, avós em papéis coadjuvantes de peso e o tempo num desafiador papel-título – abriu uma exceção este ano. A que vos escreve foi acomodada numa cadeira dobrável numa garagem aberta em Hisøy no domingo à tarde, com programa e uma marmita que ninguém tinha preparado.
O primeiro ato abre com o recurso mais forte do espetáculo. Um pai está no meio da garagem com a chave do carro na mão e diz: «O que é que a gente vai fazer, afinal?» A fala volta sete vezes em quarenta e cinco minutos, cada vez com mais gravidade. Na sexta vez, ele diz para o portão da garagem. Na sétima, ninguém responde, nem o portão. Cru.
A mãe foi escrita como contraponto. Ela tem uma lista, plastificada, e lê como uma chamada: parque aquático em Kristiansand (rejeitado, «fizemos isso no ano passado»), a cabana em Åmli (rejeitada pelo adolescente, sem justificativa) e «só ficar de boa em casa» (rejeitado por todos, com uma força que eu não via desde as grandes tragédias). A lista volta para a gaveta. Vai reaparecer no quarto ato.
As crianças carregam o espetáculo. O monólogo do adolescente no sofá, com o capuz puxado por cima da cabeça inteira, dura um ato inteiro e consiste numa única palavra. A palavra é «chato», e é entregue num registro que vai do sussurro a algo parecido com uma buzina de nevoeiro.
O irmão caçula tem uma só fala: «Já é férias?» Ele a diz a cada dez minutos desde as oito da manhã, para ninguém. Lá pelas quatro, muda para «Amanhã também é férias?», e eu fiquei com um nó na garganta que não sentia desde um espetáculo de dança contemporânea na Kanalplassen, muitos verões atrás.
O segundo ato leva a ação para a cidade, onde a família vai «fazer alguma coisa no centro». A cenografia é corajosamente minimalista: um banco, uma gaivota e um quiosque de sorvete que fechou em agosto. A gaivota não tem falas, mas rouba a cena ficando em pé no banco e olhando para a família com uma cara de quem pergunta se eles realmente pretendem sentar ali.
O pai compra quatro cafés e um chocolate quente. O recibo é lido pela mãe, linha por linha, numa recitação longa e sombria que faz o banco inteiro olhar para dentro das xícaras. É o ponto alto musical do espetáculo, embora não seja música.
O terceiro ato pertence aos avós, que chegam de Froland com uma caixa de maçãs que ninguém pediu. O avô tem uma fala que ensaia há cinquenta anos: «Quando a gente era pequeno, chamava férias da batata, e a gente colhia batata.» A avó emenda perguntando se as crianças já pensaram em colher maçãs, e aponta para a caixa. Ninguém pensou.
A atuação do tempo merece um parágrafo próprio. O papel é interpretado pelo próprio tempo, sem dublê. Os meteorologistas prometem de treze a dezessete graus e céu nublado na segunda, mas no ensaio geral o tempo ficou nos bastidores o domingo inteiro, nublado e sem chuva, como se estivesse se guardando para a estreia. Segundo o programa, a direção colocou chuva a partir de quarta-feira, «diga a previsão o que disser».
O quarto ato é silencioso. A família inteira está sentada cada um numa ponta do sofá, cada um com sua telinha acesa, e ninguém diz nada por quarenta e cinco minutos. É o trabalho de conjunto mais afinado que já vi em Agder. Então a mãe pega de novo a lista plastificada. Continua do mesmo tamanho. Ninguém levanta os olhos.
O quinto ato se passa uma semana depois, domingo à noite, e consiste numa única frase do pai: «Passou rápido, né.» É o único clichê do espetáculo, mas entregue com tanta convicção que esta crítica derramou uma lágrima na garagem. O caçula pergunta se amanhã é férias. Não é.
Os pontos fracos precisam ser mencionados. A duração é um desafio: as Férias de Outono duram nove dias contando os fins de semana, mas parecem três semanas. O figurino são as capas de chuva do ano passado, dois números menores. E ninguém no elenco foi informado sobre o que é o espetáculo, o que a direção afirma ser justamente a proposta.
Nota cinco no dado. A continuação, as férias de Natal, já foi anunciada, com o mesmo elenco, mais tias e menos luz do dia. Não é preciso ingresso. Todo mundo participa de qualquer jeito.
A matéria te fez rir, ou pelo menos sorrir? Aperte a caveira.
Anotado. O editor-chefe chama isso de um avanço para toda a região.
Comentários (6)

Måka
Era eu no banco. Não tenho falas porque ninguém perguntou. Fiquei lá três horas, porque onde tem chocolate quente, tem pãozinho doce. Não tinha pãozinho doce.
ELETROQUÍMICA [Lendário: Falha]
Banco. Família. Quatro cafés e um chocolate quente. Onde tem chocolate quente, tem pãozinho doce. Fica aí, eles estão olhando para as xícaras.

Anonym
Gente, aquilo não era um papel. Essa gaivota fica naquele banco todo santo dia olhando para as pessoas daquele jeito. Está me olhando desde o verão passado. Não sentem ali.
MEIA-LUZ [Trivial: Sucesso]
A gaivota. No banco. Ela está olhando para você. Não senta aí!

Bjørg Terkelsen (71)
Anônimo, no meu tempo não tinha gaivota nos bancos, porque a gente tinha férias da batata e todo mundo estava na roça. O sol brilhou todos os dias por três semanas, e a gente era grata. Criança hoje não sabe o que é uma batata.
NOSTALGIA [Formidável: Falha]
Lembra das férias da batata? O sol brilhava todo dia, as batatas eram do tamanho de um repolho, e ninguém reclamava de nada.

Wenche Olsen (72)
Querida Gaivota, você diz que ninguém te perguntou nada. Mas você ficou três horas lá sem dizer uma palavra, e isso, na verdade, é uma escolha. Algumas de nós ficam na cerca viva todo dia sem ninguém perguntar nada, e não reclamamos no jornal. É assim quando a gente tem estilo.
RETÓRICA [Fácil: Sucesso]
A gaivota diz que ninguém perguntou nada para ela. Pega ela nisso: ficou três horas lá sem dizer nada. Isso é uma escolha.

Bjørg Terkelsen (71)
A Wenche fica na cerca viva todo dia, sim. Quatro casas da rua já repararam, e o carteiro também. Ela chama isso de estilo. Nós chamamos de a cortina dela estar puxada para o lado desde junho.
OLHAR DO VIZINHO [Fácil: Sucesso]
Ela diz que fica na cerca viva todo dia. A rua inteira já viu. Conta quantos.

Abdirahman Warsame
Passou rápido mesmo, chefe. Nove dias não são nada, já fiquei mais tempo no Pollen esperando o navio do rei. Mas agora tô vendo que esqueci de inscrever as crianças em qualquer coisa, e amanhã é segunda. Vai se ajeitar.
CALMA SULISTA [Impossível: Falha]
Vai se ajeitar. Nove dias não são nada. Você já ficou mais tempo no Pollen esperando o navio do rei.
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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.
