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O homem que pediu a ciclovia em Homborsund encontrou a si mesmo no meio dela

Depois de 35 anos, a nova ciclovia até Homborsund foi inaugurada na segunda, com o musical sobre a história do vilarejo encenado ao longo de todo o trajeto. O primeiro a pedalar por ela teve que atravessar trezentos anos e deu de cara consigo mesmo em 1991.

Por Ingolf Grimstadius · terça-feira, 6 de outubro de 2026 às 07h13

Um senhor de colete refletivo e boina segura a bicicleta e um boné enquanto um fiscal de uniforme canta com a mão no peito. Atrás, um homem das cavernas de pele com lança e camponeses com forcados ao longo de um caminho estreito.
O fiscal da alfândega de 1740 cantou os sete versos. O homem que esperou 35 anos ficou de boné na mão até a última estrofe. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Segunda-feira, ao meio-dia, a nova via para pedestres e ciclistas entre Eide e Homborsund foi inaugurada com festa popular, musical e convidados ilustres. Foram 35 anos desde que o vilarejo pediu por ela pela primeira vez, e três dias antes do que o diretor tinha calculado chegar.

Como este jornal noticiou na semana passada, o ensaio geral na área de descanso nunca passou de 1740. No fim de semana o diretor resolveu do único jeito que uma nação culta resolve: levou a peça inteira para a própria via. Cada cena ganhou seu trecho, na ordem certa, com a era do gelo em Eide e a fita em Homborsund. O século XVII inteiro agora cabe entre dois postes de luz. A dissolução da união com a Suécia leva três passos.

– Agora a história anda na velocidade de uma caminhada. É o ritmo que ela sempre teve, diz o diretor, que desta vez fez os dois práticos do porto, a vaca e o meirinho.

O primeiro a testar a via foi o homem que escreveu a primeira carta pedindo por ela. Ele é ex-motorista de caminhão de leite, mora a um pulo da igreja de Eide e pedala até o mercadinho pelo acostamento toda terça há 35 anos, de colete refletivo e com uma relação íntima com carretas.

Ele entrou empurrando a bicicleta pela era do gelo às nove e meia. O homem de suéter cinza recuou educadamente. Na primeira curva, um colono pôs um forcado na mão dele, e ele ficou quinze minutos ajudando na colheita do feno. Em 1740 o fiscal da alfândega cantou os sete versos, e ele esperou até a última estrofe, porque aqui é assim que se faz.

– Esperei 35 anos. Sete versos passam rápido, diz ele.

Em algum ponto entre os construtores de navios e o primeiro telefone, ele chegou a 1991. Ali estava um jovem ator sentado a uma mesa de cozinha no meio da ciclovia, escrevendo uma carta à caneta. Era ele. A cena é a favorita do autor: três minutos em que nada acontece, a não ser um homem escrevendo «À Prefeitura de Grimstad», riscando e escrevendo «Ao Departamento Nacional de Estradas». A carta tinha uma página só. Ele pedia um caminho seguro até a escola «antes que as crianças cresçam». Hoje as crianças têm mais de quarenta anos e andam de carro, mas a carta nunca foi retirada.

Ele ficou um bom tempo olhando para si mesmo. No fim, debruçou-se sobre a mesa e corrigiu a grafia de «calçada». O ator agradeceu e prometeu lembrar na próxima sessão.

Um senhor de colete refletivo e boina se inclina sobre uma mesa de cozinha na ciclovia e aponta para uma carta, enquanto um jovem ator de colete igual, de caneta na mão, sorri para ele. Dois curiosos espiam por cima do ombro.
A cena de 1991 dura três minutos. O ator foi orientado a manter a correção nas próximas sessões. Ilustração: Gunnar Skravur. O desenho não foi aprovado por ninguém (IA)

– Eu tinha mais cabelo. De resto, estava certinho, diz ele.

O interlúdio sobre o período de obras, que pelo plano seria encenado em tempo real, foi reduzido a uma escavadeira estacionada atravessada na ciclovia, com o motor ligado. Ele contornou pela vala, como está acostumado.

Ao meio-dia ele chegou a 2026. A sanfona tocou, o prefeito da nossa pequena nação cortou a fita, e uma delegação do estado vizinho ficou lá no fundo anotando. Ele pedalou os últimos dez metros no asfalto novo, sozinho, e o vilarejo aplaudiu como se fosse 17 de maio.

Depois ele ficou parado junto à fita olhando para trás, para a via que tinha pedido. Dali dava para ver a história toda de uma vez: o gelo, o feno, o fiscal da alfândega, a mesa da cozinha e a escavadeira. Disse que estava mais bonito do que imaginava, e que tinha imaginado que ia ficar bem bonito. No estado vizinho, ciclovias são inauguradas com uma fita e um comunicado à imprensa. Nossa pequena nação inaugura as suas com trezentos anos e uma vaca, e dá para sentir a diferença.

Para voltar para casa, pedalou pelo acostamento da estrada estadual. A história continuava em cima da ciclovia, e o diretor tinha pedido que ninguém a atravessasse de trás para frente.

Um homem de colete refletivo pedala no acostamento enquanto um caminhão passa. Na ciclovia ao lado, atores fantasiados fazem fila – uma mulher com forcado, um homem das cavernas, um fiscal acenando – até uma escavadeira soltando fumaça.
O caminho de volta. O diretor pediu que ninguém atravessasse a história de trás para frente. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

– Tudo bem. Agora ela está lá, diz ele, abotoando o colete refletivo.

Comentários (2)

  1. Tarjei Kvipt

    Fez vaca, meirinho e prático também,
    e a estrada levou trinta e cinco anos pra sair.
    Em Fyresdal se faz estrada sem ninguém,
    mas o povo das cabanas vem logo invadir.

    DRAMA [Desafiador: Sucesso]

    (Ele se levanta nos bastidores.) Práticos, vaca e meirinho num só corpo, meu senhor. É papel para um trovador. Cante.

    1. Kent-Ove Johannessen

      Tarjei, Arendal teve musical numa rotatória faz tempo. Durou quatro anos e se chamava «Desvio». Grimstad copia, como sempre.

      DRAMA [Médio: Falha]

      (Holofote.) Roubaram a cena do senhor. Responda com um espetáculo maior. Diga que Arendal teve um mais longo.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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