Sátira ReportagemNotícias
O homem que pediu a ciclovia em Homborsund encontrou a si mesmo no meio dela
Depois de 35 anos, a nova ciclovia até Homborsund foi inaugurada na segunda, com o musical sobre a história do vilarejo encenado ao longo de todo o trajeto. O primeiro a pedalar por ela teve que atravessar trezentos anos e deu de cara consigo mesmo em 1991.
Segunda-feira, ao meio-dia, a nova via para pedestres e ciclistas entre Eide e Homborsund foi inaugurada com festa popular, musical e convidados ilustres. Foram 35 anos desde que o vilarejo pediu por ela pela primeira vez, e três dias antes do que o diretor tinha calculado chegar.
Como este jornal noticiou na semana passada, o ensaio geral na área de descanso nunca passou de 1740. No fim de semana o diretor resolveu do único jeito que uma nação culta resolve: levou a peça inteira para a própria via. Cada cena ganhou seu trecho, na ordem certa, com a era do gelo em Eide e a fita em Homborsund. O século XVII inteiro agora cabe entre dois postes de luz. A dissolução da união com a Suécia leva três passos.
– Agora a história anda na velocidade de uma caminhada. É o ritmo que ela sempre teve, diz o diretor, que desta vez fez os dois práticos do porto, a vaca e o meirinho.
O primeiro a testar a via foi o homem que escreveu a primeira carta pedindo por ela. Ele é ex-motorista de caminhão de leite, mora a um pulo da igreja de Eide e pedala até o mercadinho pelo acostamento toda terça há 35 anos, de colete refletivo e com uma relação íntima com carretas.
Ele entrou empurrando a bicicleta pela era do gelo às nove e meia. O homem de suéter cinza recuou educadamente. Na primeira curva, um colono pôs um forcado na mão dele, e ele ficou quinze minutos ajudando na colheita do feno. Em 1740 o fiscal da alfândega cantou os sete versos, e ele esperou até a última estrofe, porque aqui é assim que se faz.
– Esperei 35 anos. Sete versos passam rápido, diz ele.
Em algum ponto entre os construtores de navios e o primeiro telefone, ele chegou a 1991. Ali estava um jovem ator sentado a uma mesa de cozinha no meio da ciclovia, escrevendo uma carta à caneta. Era ele. A cena é a favorita do autor: três minutos em que nada acontece, a não ser um homem escrevendo «À Prefeitura de Grimstad», riscando e escrevendo «Ao Departamento Nacional de Estradas». A carta tinha uma página só. Ele pedia um caminho seguro até a escola «antes que as crianças cresçam». Hoje as crianças têm mais de quarenta anos e andam de carro, mas a carta nunca foi retirada.
Ele ficou um bom tempo olhando para si mesmo. No fim, debruçou-se sobre a mesa e corrigiu a grafia de «calçada». O ator agradeceu e prometeu lembrar na próxima sessão.
– Eu tinha mais cabelo. De resto, estava certinho, diz ele.
O interlúdio sobre o período de obras, que pelo plano seria encenado em tempo real, foi reduzido a uma escavadeira estacionada atravessada na ciclovia, com o motor ligado. Ele contornou pela vala, como está acostumado.
Ao meio-dia ele chegou a 2026. A sanfona tocou, o prefeito da nossa pequena nação cortou a fita, e uma delegação do estado vizinho ficou lá no fundo anotando. Ele pedalou os últimos dez metros no asfalto novo, sozinho, e o vilarejo aplaudiu como se fosse 17 de maio.
Depois ele ficou parado junto à fita olhando para trás, para a via que tinha pedido. Dali dava para ver a história toda de uma vez: o gelo, o feno, o fiscal da alfândega, a mesa da cozinha e a escavadeira. Disse que estava mais bonito do que imaginava, e que tinha imaginado que ia ficar bem bonito. No estado vizinho, ciclovias são inauguradas com uma fita e um comunicado à imprensa. Nossa pequena nação inaugura as suas com trezentos anos e uma vaca, e dá para sentir a diferença.
Para voltar para casa, pedalou pelo acostamento da estrada estadual. A história continuava em cima da ciclovia, e o diretor tinha pedido que ninguém a atravessasse de trás para frente.
– Tudo bem. Agora ela está lá, diz ele, abotoando o colete refletivo.
A matéria te fez rir, ou pelo menos sorrir? Aperte a caveira.
Anotado. O editor-chefe chama isso de um avanço para toda a região.
Comentários (2)

Tarjei Kvipt
Fez vaca, meirinho e prático também,
e a estrada levou trinta e cinco anos pra sair.
Em Fyresdal se faz estrada sem ninguém,
mas o povo das cabanas vem logo invadir.DRAMA [Desafiador: Sucesso]
(Ele se levanta nos bastidores.) Práticos, vaca e meirinho num só corpo, meu senhor. É papel para um trovador. Cante.

Kent-Ove Johannessen
Tarjei, Arendal teve musical numa rotatória faz tempo. Durou quatro anos e se chamava «Desvio». Grimstad copia, como sempre.
DRAMA [Médio: Falha]
(Holofote.) Roubaram a cena do senhor. Responda com um espetáculo maior. Diga que Arendal teve um mais longo.
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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.
