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O xerife passou a noite inteira no Pollen registrando a volta da cidade depois das férias de outono

A cidade ficou nove dias fora, e alguém precisa anotá-la no livro de ocorrências quando ela volta. Ninguém pediu isso ao xerife. Ele levou a lanterna de carbureto, a bicicleta e o livro de registro nº 41, e sentou-se no cais no sábado às seis da tarde.

Por Lensmannen · domingo, 11 de outubro de 2026 às 11h10

Aquarela de um xerife muito velho, de bigode branco e uma gaivota no quepe, sentado numa cadeira de campanha num cais de madeira ao entardecer, escrevendo num livro enorme. Ao lado, uma bicicleta antiga com a lanterna acesa. Atrás dele passa uma fila de carros antigos com malas no teto, e os passageiros acenam. À esquerda, pessoas em roupas de época sob um lampião a gás.
Pollen, sábado às 20h00. O livro está em dia até as 18h44. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Torna-se público que o abaixo-assinado, na noite de sábado para domingo, 11 de outubro, manteve posto no Pollen, em Arendal, das 18h00 às 05h40, com base em instrução nenhuma, e que a cidade foi registrada de volta após as férias de outono. Não é novidade. Registro a cidade na volta de todas as férias desde 1931, e na saída antes de cada uma. Ninguém me pediu. Também ninguém me pediu para não fazer, e isso eu tomo como uma ordem.

O equipamento foi o de praxe: a bicicleta de serviço de 1929, uma cadeira de campanha, uma garrafa térmica com café passado ontem e o livro de registro nº 41, iniciado em 1931, com três páginas em branco restando. Além da lanterna de carbureto. Ela fica pendurada no guidão e ilumina cinco metros à frente, ou quatro quando o vento vem de Tromøy. É a única lanterna da cidade em que confio. As lanternas novas piscam. Na minha avaliação, piscar não é o mesmo que iluminar.

O primeiro a entrar foi registrado às 18h12: uma família de quatro vinda das Ilhas Canárias, com duas malas de rodinhas. Anotei as rodinhas à parte, pois, se bem me lembro, foram autorizadas em 1972, talvez 1927. A família contou que tinha voltado um dia antes do combinado, caso houvesse greve na aviação. Registrei como previdência. É a primeira vez que essa palavra aparece no livro, e tive que conferir como se escreve.

Então vieram os automóveis. Entre 18h30 e 20h00, passaram 214 deles pela Langbrygga, rumo ao centro, a maioria vindo das casas de veraneio em Tromøy e Hisøy, alguns da montanha com neve no teto. O abaixo-assinado registra cada automóvel em linha própria, com direção, cor e número de ocupantes, e com a caneta nova dá conta de mais ou menos um por minuto. Ou seja: às 20h00 o livro estava em dia até as 18h44. O resto foi registrado conforme o melhor juízo ao longo da noite, e algumas cores foram chutadas.

Nenhum automóvel parou. A maioria acenou. Aceno vale como documento de identidade neste distrito desde 1946, e consta no livro que todos os 214 acenaram, com exceção de um, que buzinou. Buzina não é documento. Anotei a placa, mas era uma das novas, com letras demais, e só consegui pegar as três primeiras.

Às 19h30, a anfitriã do cais saiu com uma xícara de café para mim, quente, ao contrário do meu. Perguntou se eu ia ficar ali a noite toda. Respondi que essa era a ideia. Ela disse que, nesse caso, gostaria de me chamar a atenção para uma formalidade: já tinha anunciado um programa com a ordem em que a cidade poderia voltar para casa, e ali estava escrito domingo. Aquilo era sábado.

Examinei o caso. A anfitriã tem razão. A cidade chegou um dia inteiro antes da hora, e na ordem errada – o pessoal das casas de veraneio antes dos que estavam no exterior, e ninguém depois do padeiro, que pelo programa deveria chegar primeiro, mas que nunca viajou para lugar nenhum. Em comum acordo com a anfitriã, decidiu-se registrar a lápis todos os que chegaram no sábado e passá-los a tinta no domingo, quando, segundo o programa, são esperados. Leva tempo. Está certo. Tempo eu tenho.

Aquarela de uma anfitriã imponente, de estola de plumas, chapéu enorme de plumas e piteira, entregando uma xícara de café ao velho xerife na cadeira de campanha e apontando para um longo programa escrito à mão. O xerife olha confuso para a folha, com o livro no colo e a gaivota no quepe. Atrás dela, dois homens na porta de um bar iluminado.
19h30. Segundo o programa, o próprio xerife só deveria chegar no domingo às 12h30. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Às 21h05 ocorreu o que no livro está registrado como «o incidente». O céu sobre o Pollen ficou verde. Primeiro um pouco, depois mais, depois em faixas que iam de Hisøy para o oeste. Era uma luz. Não tinha lanterna nem bicicleta, e se movia sem dar sinal.

O Regulamento de Iluminação Noturna de 1928, que o abaixo-assinado leva no bolso, é claro: toda luz que circule sobre a cidade depois do anoitecer deve ter um portador. Levantei-me da cadeira de campanha e procurei o portador. Não havia nenhum. Desci então até a ponta do cais e apontei a lanterna de carbureto para o céu, para que a luz soubesse que tinha sido vista. A luz não reagiu.

Aos poucos, várias pessoas pararam à minha volta. Todos erguiam o telégrafo de bolso para o céu e, pelo que entendi, mandavam a luz para o jornal. Fui informado de que aquilo se chama aurora boreal e que vem do sol. A isso cabe observar que o sol se pôs às 18h40 e que eu o registrei como saído. Ele não pode voltar antes de amanhã sem que isso seja anotado.

Aquarela do xerife visto de costas, na ponta do cais, erguendo a lanterna da bicicleta para uma aurora boreal verde sobre o porto. A gaivota no quepe também olha para cima. Atrás dele, cinco pessoas em roupas de época erguem pequenos retângulos luminosos para o céu.
21h20. A luz foi devidamente avisada de que foi vista. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

A luz sumiu às 22h20, na direção sudoeste. É o mesmo rumo de Grimstad. Não tomei posição sobre se foi coincidência, mas vejo hoje que os leitores mandaram ao jornal quase só fotos daquele lado do céu, e isso me reforça a impressão de que não fui o único a segui-la com os olhos. O caso foi registrado como não esclarecido. É o quarto caso não esclarecido do livro. Os outros três também são luzes.

Entre 22h30 e meia-noite chegaram os que tinham ido ao jogo de futebol em Grimstad. Vieram a pé, de ônibus e em dois automóveis. Não disseram nada sobre o placar, e eu não perguntei. Não existe campo para placares no livro. Isso foi avaliado em 1931 e rejeitado, já que naquela época os jogos eram decididos no sábado e esquecidos no domingo. Pelo que entendo, já não é mais assim.

Às 00h15, a anfitriã fechou. Saiu, olhou para mim, olhou para o livro e disse que agora éramos só nós dois no porto. Não era bem verdade. Éramos nós dois, três gatos e uma gaivota que pousa no meu quepe todas as noites desde maio. A gaivota não foi registrada. Ela não viajou.

Depois da meia-noite, o Pollen fica em silêncio. O abaixo-assinado aprendeu em 95 anos de serviço que é aí que se deve estar mais atento. É quando a cidade acha que ninguém está vendo. Fiquei sentado reto na cadeira de campanha, de lanterna acesa e caneta na mão, olhando a cidade que achava que ninguém estava vendo.

O livro, entre 02h10 e 02h50, está escrito com outra letra. Ela é maior, desce para a direita e, num trecho, sai da margem e invade o dia seguinte. Investiguei o caso hoje cedo e concluí que é a minha. Está escrito ali que chegou uma balsa com elefantes. Não há horário anotado, e preferi não passar a tinta.

Aquarela do xerife cochilando na cadeira de campanha, com a caneta encostada no livro e uma lanterna acesa ao lado. No porto passa um vapor a roda iluminado com dois elefantes no convés, sob a lua cheia. Um gato sentado num cabeço de amarração observa.
Por volta das 02h30. O caso está em análise. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Às 04h05 veio o último automóvel. Ele não entrou. Saiu, com bagageiro de teto e placa de Oslo, rumo à E18. Pelo que pude ver, era gente de casa de veraneio que tinha passado as férias inteiras em Tromøy e agora voltava antes do engarrafamento. Saída não é da minha alçada, mas registrei mesmo assim, na última linha, para a cidade fechar no zero a zero.

Às 05h00, o padeiro do centro acendeu a luz da padaria. É a única luz que eu não registro. Ela está acesa a essa hora todos os dias desde que o bisavô dele acendeu o forno pela primeira vez, e tem portador. Tor-Ivar Hvetland desceu até o cais com um pão doce de canela para mim e perguntou o que eu estava escrevendo. Eu disse que estava registrando a entrada dele. Ele disse que nunca tinha saído. Eu disse que era justamente por isso.

Aquarela de um padeiro satisfeito e sonolento, de touca, bigode e avental enfarinhado, oferecendo uma bandeja de pães de canela ao velho xerife, que escreve no livro sem levantar os olhos. Atrás do padeiro brilha uma vitrine cheia de pães, e o nascer do sol tinge o porto.
05h04. O padeiro foi registrado, com portador e cinco pães doces. O xerife registrou um. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

O livro da noite mostra, portanto, o seguinte: 1.214 pessoas chegando, 217 automóveis (213 acenaram, um buzinou, três vieram no escuro e foram registrados pelo barulho), três gatos, um portador de pães doces, uma luz verde sem portador (não esclarecida), uma balsa com elefantes (em análise) e zero bicicletas sem lanterna. Este último é o melhor resultado desde 1952. A cidade deve, portanto, ser considerada de volta, com ressalva da passagem a tinta.

Dobrei a cadeira de campanha às 05h40 e pedalei para casa pela Langbrygga, a doze metros por minuto, de lanterna acesa. Já estava claro. Pelo regulamento, não há motivo para apagar a lanterna antes de chegar. Nunca se sabe quem está olhando.

O livro segue hoje, como todo ano, por telegrama para a administração do condado. O condado não responde desde 1964. O abaixo-assinado interpreta isso como sinal de que lá também está tudo em ordem.

Comentários (4)

  1. Optikeren i Havnegaten

    Bem escrito. Mas o que o xerife viu ontem à noite não era verde. Eu vi da loja, e era turquesa, puxando para o petróleo. Tudo que é verde nesta cidade acaba turquesa. O xerife devia examinar a visão de cores, tenho horário livre em fevereiro.

    PERCEPÇÃO [Desafiador: Falha]

    Repare na cor da placa na sua vitrine. Era verde quando você pendurou. Agora está turquesa. O sol faz isso com tudo que é verde nesta cidade.

    1. Geir Oddvar Strand

      @Skarpsynt_i_Havnegaten Turquesa ou verde, vocês resolvem em fevereiro. O que eu li foi que o padeiro distribui pão doce no Pollen às cinco da manhã. Já pus o despertador para 04h45 e vou levar o cunhado. A gente leva cadeira de campanha.

      ELETROQUÍMICA [Desafiador: Falha]

      Pão doce às cinco da manhã. Quentinho. Ele ganhou de graça, Geir. De graça. Você pode estar lá às cinco amanhã. É quase uma obrigação.

  2. Wenche Olsen (72)

    Que bom que alguém mantém a ordem no porto. Notei que certas pessoas da vizinhança já tinham fechado as cortinas às onze e meia ontem, bem no meio da aurora boreal. É uma escolha, né. Uns olham para o céu, outros não veem nada.

    PERCEPÇÃO [Fácil: Falha]

    Repare que a cortina da casa ao lado estava fechada às onze e meia ontem. Ela nunca é fechada antes da meia-noite.

    1. Bjørg Terkelsen (71)

      @Over_hekken A cortina estava fechada porque eu estava lá fora, no poste de luz, Wenche. Ele não acende desde março, então levei lanterna. E aliás, foi o seu genro que buzinou. Eu tenho as três primeiras letras.

      AUTORIDADE [Médio: Sucesso]

      BUZINA NÃO É DOCUMENTO. Ele tem razão. Você tem provas. Curto e grosso. AGORA.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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