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O melhor espetáculo do outono acontece a 14 metros de profundidade, e o protagonista ainda não apareceu

O Agderposten transmite ao vivo de uma armadilha de lagosta em Flødevigen. A editoria de cultura sentou na primeira fila desde a estreia, e já viu mais alga do que lagosta.

Por Mona Lauvland · sexta-feira, 2 de outubro de 2026 às 13h10

Desenho de uma sala de cinema com público de chapéus e xales olhando para uma tela grande. Na tela aparece uma armadilha de lagosta no fundo do mar, e um caranguejo está saindo pela abertura. Uma senhora com uma xícara de café se inclina para a frente, um menino está ajoelhado no assento.
Sala 2 durante o primeiro ato. O caranguejo acabou de sair pela terceira vez, e ninguém na plateia quer ser o primeiro a ir embora. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

É raro um espetáculo ter coragem de deixar o protagonista esperando. «A Armadilha ao Vivo», que estreou sexta de manhã a 14 metros de profundidade em Flødevigen, tem. Depois de três horas e doze minutos, a lagosta ainda não pisou no palco, e não lembro a última vez que estive tão presente numa sala.

A sala é a sala 2 do cinema do centro, que botou a transmissão no telão por 40 coroas o ingresso. Quando cheguei, estava meio cheia. Um grupo de aposentados tinha trazido garrafa térmica, um pai trouxe dois filhos a quem tinham prometido lagosta, e 31 alunos de uma escola em Hisøy estavam numa excursão de oceanografia. Ficaram pela arte.

A cenografia é sóbria. Uma armadilha, um saquinho de isca, um pouco de areia e uma luz de salão paroquial depois de queda de energia. Sem música, sem programa. O Instituto de Pesquisa Marinha, que assina a montagem, preferiu deixar o mar falar, e o mar preferiu dizer muito pouco.

– Não dirigimos nada. A lagosta decide sozinha se quer participar, diz um pesquisador em Flødevigen, que não aceita ser chamado de diretor, mas que acompanhou a transmissão de braços cruzados, como só diretor faz em noite de estreia.

O primeiro ato é de um caranguejo. Às 10h20 ele entra na armadilha, olha em volta e sai. Às 10h55 faz o mesmo. Às 11h31 faz de novo, agora mais devagar, com um peso que eu só vi nos maiores atores em turnê pela região. Na quarta entrada, uma senhora da segunda fila levantou e foi embora. Na quinta, voltou com um café e sentou mais perto.

Impossível não pensar naquela peça absurda famosa em que dois homens esperam alguém que nunca chega. Aqui esperam uma sala de cinema inteira, uma escola e um número desconhecido de salas de estar em Stoa por uma lagosta que, tecnicamente, não prometeu nada a ninguém.

Às 11h50 a lente embaçou, e a transmissão ficou cinza por sete minutos. A plateia não se mexeu. Um homem da última fila disse «intervalo» em voz alta, e houve intervalo. A bombonière esgotou o camarão.

Desenho de um saguão de cinema visto de cima. No balcão da bombonière, uma atendente levanta uma tigela de vidro vazia. Uma senhora de xale e um homem robusto com uma garrafa térmica discutem sobre uma cavala num prato, enquanto três crianças de boné olham.
O intervalo. A cavala foi apresentada ao público no saguão, e ali chamada tanto de objeto de cena quanto de atriz coadjuvante. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

No saguão surgiu uma discussão sobre a isca. A cavala é objeto de cena ou atriz coadjuvante? O pesquisador respondeu por telefone que a cavala é «isca». Anotei como uma resposta que diz mais sobre a instituição do que sobre a cavala.

O único aplauso veio às 12h24, quando um bacalhau jovem atravessou a tela da esquerda para a direita sem nem olhar para a armadilha. Foi o primeiro encontro do público com um personagem que não queria nada, e foi libertador. O bacalhau foi aplaudido de pé. Não voltou para agradecer.

Desenho do público de um cinema de pé, aplaudindo. Uma senhora de xale aplaude com uma xícara na mão, um menino em pé no assento ergue o punho. Na tela, um bacalhau sai do quadro nadando, e a armadilha de lagosta no fundo do mar está vazia.
12h24. O bacalhau deixou a tela e não quis comentar a recepção. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Há fragilidades. O segundo ato se arrasta, e a luz é uniforme demais para eu chamar de desenho de luz. A sexta entrada do caranguejo foi uma a mais: foi ali que ele começou a atuar para a câmera. Mas a montagem tem algo que as artes cênicas de Agder raramente têm. Ela tem coragem de ser chata até o fim, sem piscar, com uma disciplina que eu chamaria de implacável.

Os alunos de Hisøy vão escrever sobre a transmissão na segunda. O professor ainda não conseguiu dizer qual é o tema da redação, porque depende da lagosta. O cinema abriu sessões extras durante todo o feriado de outono.

Às 13h12, enquanto esta crítica era finalizada, a lagosta finalmente entrou na armadilha. A transmissão estava no intervalo comercial.

Comentários (2)

  1. Wenche Olsen (72) @Over_hekken

    Assisti ao espetáculo inteiro em casa, na poltrona, com café. O caranguejo foi o único na transmissão que sabia a hora de ir embora. Muita gente na minha rua podia aprender com ele.

    1. Bjørg Terkelsen (71) @Lyktestolpen

      NO MEU TEMPO a lagosta entrava na armadilha quando mandavam. Liguei para o Instituto de Pesquisa Marinha e pedi para falar com o responsável pela lagosta. Me transferiram para a central três vezes. Continuo no telefone, Wenche, e não desligo até alguém atender.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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