Sátira ReportagemCultura
O melhor espetáculo do outono acontece a 14 metros de profundidade, e o protagonista ainda não apareceu
O Agderposten transmite ao vivo de uma armadilha de lagosta em Flødevigen. A editoria de cultura sentou na primeira fila desde a estreia, e já viu mais alga do que lagosta.
É raro um espetáculo ter coragem de deixar o protagonista esperando. «A Armadilha ao Vivo», que estreou sexta de manhã a 14 metros de profundidade em Flødevigen, tem. Depois de três horas e doze minutos, a lagosta ainda não pisou no palco, e não lembro a última vez que estive tão presente numa sala.
A sala é a sala 2 do cinema do centro, que botou a transmissão no telão por 40 coroas o ingresso. Quando cheguei, estava meio cheia. Um grupo de aposentados tinha trazido garrafa térmica, um pai trouxe dois filhos a quem tinham prometido lagosta, e 31 alunos de uma escola em Hisøy estavam numa excursão de oceanografia. Ficaram pela arte.
A cenografia é sóbria. Uma armadilha, um saquinho de isca, um pouco de areia e uma luz de salão paroquial depois de queda de energia. Sem música, sem programa. O Instituto de Pesquisa Marinha, que assina a montagem, preferiu deixar o mar falar, e o mar preferiu dizer muito pouco.
– Não dirigimos nada. A lagosta decide sozinha se quer participar, diz um pesquisador em Flødevigen, que não aceita ser chamado de diretor, mas que acompanhou a transmissão de braços cruzados, como só diretor faz em noite de estreia.
O primeiro ato é de um caranguejo. Às 10h20 ele entra na armadilha, olha em volta e sai. Às 10h55 faz o mesmo. Às 11h31 faz de novo, agora mais devagar, com um peso que eu só vi nos maiores atores em turnê pela região. Na quarta entrada, uma senhora da segunda fila levantou e foi embora. Na quinta, voltou com um café e sentou mais perto.
Impossível não pensar naquela peça absurda famosa em que dois homens esperam alguém que nunca chega. Aqui esperam uma sala de cinema inteira, uma escola e um número desconhecido de salas de estar em Stoa por uma lagosta que, tecnicamente, não prometeu nada a ninguém.
Às 11h50 a lente embaçou, e a transmissão ficou cinza por sete minutos. A plateia não se mexeu. Um homem da última fila disse «intervalo» em voz alta, e houve intervalo. A bombonière esgotou o camarão.
No saguão surgiu uma discussão sobre a isca. A cavala é objeto de cena ou atriz coadjuvante? O pesquisador respondeu por telefone que a cavala é «isca». Anotei como uma resposta que diz mais sobre a instituição do que sobre a cavala.
O único aplauso veio às 12h24, quando um bacalhau jovem atravessou a tela da esquerda para a direita sem nem olhar para a armadilha. Foi o primeiro encontro do público com um personagem que não queria nada, e foi libertador. O bacalhau foi aplaudido de pé. Não voltou para agradecer.
Há fragilidades. O segundo ato se arrasta, e a luz é uniforme demais para eu chamar de desenho de luz. A sexta entrada do caranguejo foi uma a mais: foi ali que ele começou a atuar para a câmera. Mas a montagem tem algo que as artes cênicas de Agder raramente têm. Ela tem coragem de ser chata até o fim, sem piscar, com uma disciplina que eu chamaria de implacável.
Os alunos de Hisøy vão escrever sobre a transmissão na segunda. O professor ainda não conseguiu dizer qual é o tema da redação, porque depende da lagosta. O cinema abriu sessões extras durante todo o feriado de outono.
Às 13h12, enquanto esta crítica era finalizada, a lagosta finalmente entrou na armadilha. A transmissão estava no intervalo comercial.
A matéria te fez rir, ou pelo menos sorrir? Aperte a caveira.
Anotado. O editor-chefe chama isso de um avanço para toda a região.
Comentários (2)

Wenche Olsen (72) @Over_hekken
Assisti ao espetáculo inteiro em casa, na poltrona, com café. O caranguejo foi o único na transmissão que sabia a hora de ir embora. Muita gente na minha rua podia aprender com ele.

Bjørg Terkelsen (71) @Lyktestolpen
NO MEU TEMPO a lagosta entrava na armadilha quando mandavam. Liguei para o Instituto de Pesquisa Marinha e pedi para falar com o responsável pela lagosta. Me transferiram para a central três vezes. Continuo no telefone, Wenche, e não desligo até alguém atender.
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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.
