Sátira Opinião
Ninguém nunca comeu a salada. A Madame está de olho há 120 anos
Uma rede internacional de hambúrgueres está recolhendo suas saladas de trigo bulgur porque talvez não estejam à altura. A anfitriã do cais tem outra preocupação: quem é que teria percebido?
A Madame lê no jornal que uma rede internacional de hambúrgueres está recolhendo suas saladas de bulgur com validade de 3 e 5 de outubro, porque «potencialmente não atendem aos requisitos de qualidade». A Madame tem uma única pergunta, e a faz com o lornhão erguido: quem percebeu?
Há cento e vinte anos a Madame está na porta do cais vendo a cidade ir para casa. Ela já viu o que sai dos saquinhos de papel nos bancos do Pollen às 2h10. Já viu hambúrgueres, batata frita, nuggets em caixas de vinte e uma torta de maçã que um homem de Hisøy dividiu em quatro com um canivete. Nunca viu uma salada ser aberta.
Porque a salada não é comida. A salada é uma intenção. É pedida no balcão com voz firme – «e uma salada» – pelo mesmo cliente que vinte minutos antes prometeu à Madame que ia dormir cedo nas férias de outono. É levada para casa como testemunha. Fica na geladeira até terça. Depois vai para o lixo, fechada e com dignidade.
Que uma salada dessas talvez não atenda aos requisitos de qualidade não é, portanto, um escândalo. É uma crise filosófica. Um requisito de qualidade para algo que ninguém come é como um código de vestimenta para fantasmas. A Madame tem seu próprio código de vestimenta. Nunca foi aplicado e nunca foi desrespeitado, e é exatamente assim que ela gosta.
A Madame tem, portanto, um conselho para a rede: não recolham as saladas. Ninguém vai devolvê-las. Elas estão em geladeiras por toda Agder, intactas, e os donos já esqueceram que as têm. Recolham a promessa. Foi isso que a cidade realmente comprou.
Na casa da Madame não se serve salada. É verdade que há uma no quadro atrás do balcão, escrita a giz pela antecessora dela, e nunca foi pedida. A Madame a inspeciona todo outono com o lornhão. Atende a todos os requisitos de qualidade, porque nunca existiu.
Madame Nattestad, anfitriã no cais
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Anotado. O editor-chefe chama isso de um avanço para toda a região.
Comentários (6)

Thea Marie Aamodt @Dagens_antrekk
A salada não é para comer, é para sair na foto. Ela ilumina a bandeja inteira. Usei a mesma salada em três fotos neste outono.

Ragnhild Omdal @MORMOR_PÅ_NETT
OI QUERIDO. TENHO DUAS SALADAS DESSAS NA GELADEIRA QUE POSSO LEVAR NO MUTIRÃO DO FIM DE SEMANA. NÃO FORAM ABERTAS. TRAGA POTES. BEIJO VOVÓ

Tom-Erik Haugen @Ståle_mener
O Ståle acha que a Madame está errada. O Ståle comeu uma salada em 2019. Não lembra onde, mas acha com convicção, e mencionou isso em todos os jantares desde então.

Kai Robert Tønnessen @Dypt_krenket
Eu compro a salada toda vez e tenho a intenção de comê-la toda vez. Ser retratado como alguém que só tem uma «intenção» é profundamente ofensivo. Exijo um pedido de desculpas da Madame, da rede e da minha geladeira.

Rolf Egil Syvertsen @Hilsen_fra_Spania
Na Espanha não temos esse problema. Aqui todo mundo come a salada, porque faz 27 graus e é a única coisa gelada. Você devia vir para cá, Kai Robert, assim teria menos coisa para se ofender.

Randi Marie @Hvem_bodde_hvor
A salada do quadro eu já vi. Foi escrita pela antecessora, que era filha do homem que alugava barcos no Pollen, e ela se mudou para Froland e jogava bridge com a minha mãe. Ela também nunca pediu a salada.
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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.
