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Candidatos a prefeito em Arendal se inscrevem anonimamente e são entrevistados atrás de uma cortina

Um partido de Arendal aposta numa disputa pela prefeitura no ano que vem, mas só uma pessoa teve coragem de dizer o próprio nome em voz alta. A comissão de indicação pendurou então uma cortina verde na sede do partido e entrevista os outros sem vê-los.

Por Kjell-Arne Pedersen · segunda-feira, 5 de outubro de 2026 às 07h09

Desenho de uma salinha com uma luminária no teto e uma cortina pesada e escura atravessando a sala. Um homem de cabelo desgrenhado e cavanhaque pontudo está sentado, inclinado para a frente, numa mesa dobrável com xícara de café e bloco, escutando. Um cone de papel sai da cortina, e atrás do tecido se vê a sombra de uma pessoa sentada. Três homens – um velho de suéter de tricô, um barbudo de avental e um magro de gravata-borboleta – estão atrás, escutando também.
Entrevista número sete, terça à noite. A comissão tem mais três membros, mas só uma cadeira dobrável. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

A sede do partido fica no segundo andar, em cima de um salão de cabeleireiro fechado no centro. Tem uma janela, uma luminária e, desde sexta-feira, uma cortina verde e pesada atravessando a sala, pendurada num varão parafusado nas duas paredes. De um lado senta o presidente da comissão de indicação, numa mesa dobrável, com uma xícara de café e um bloco. Do outro lado sentam, um de cada vez, os candidatos do partido a prefeito. Quem são, ninguém sabe.

– Contamos com a possibilidade de virar partido de governo, e aí precisamos de alguém que saiba governar. Mas ninguém quer aparecer no jornal antes de saber se vai ser escolhido, e ninguém é escolhido antes de aparecer no jornal. A cortina resolve as duas coisas, diz o presidente da comissão.

As candidaturas chegam pela fresta de correio da porta, sem remetente. A assinatura mais usada é «Alguém que até toparia». A segunda mais usada é «Alguém que até toparia, mas não se der muita confusão». A comissão já recebeu onze candidaturas e desconfia que pelo menos quatro são da mesma pessoa, que tentou escrever com a mão esquerda.

As entrevistas acontecem à noite, com a luminária no mínimo. O candidato entra pela porta dos fundos, senta do seu lado da cortina e responde com uma voz escolhida por ele mesmo. Três escolheram sussurrar. Um fala através de um cone de jornal. Um chegou com as respostas gravadas num gravador e foi considerado pela comissão «extremamente bem preparado, mas difícil de questionar».

– Qual é a sua visão para Arendal? perguntou o presidente da comissão na terça.

– Sobre isso eu falo mais quando estiver claro se sou eu, respondeu a cortina.

Lá fora, na escada, numa cadeira de cozinha, está o único candidato assumido do partido. Ele disse o próprio nome em voz alta nos jornais já em setembro e espera oposição desde então. Trouxe uma garrafa térmica e um gorro de tricô, que tira toda vez que alguém passa a caminho da sala, caso seja um adversário que ele deveria cumprimentar.

– Achei que ia ter disputa. Agora estou aqui ouvindo que vai ter disputa, através de uma porta, diz ele. – Um deles usa a mesma loção pós-barba que eu. Não sei o que pensar disso.

Desenho de uma escada. Um homem de casaco comprido está sentado numa cadeira de cozinha ao lado de uma porta fechada, com uma garrafa térmica aos pés, e ergue o gorro para uma pessoa de casaco e chapéu-coco que sobe a escada de costas. Atrás dele, outras três pessoas esperam.
O único candidato assumido, na escada. Ele cumprimenta todo mundo que passa, inclusive quem só vai ao dentista no andar de cima. Ilustração: Gunnar Skravur, que pediu para registrar que não comeu (IA)

Por princípio, o Agderpesten também não publicou o nome dele. Ele levou a mal. Disse que então ninguém sabe quem ele é também, e ficou um bom tempo olhando para a cortina, como se estivesse pensando em entrar atrás dela.

O sistema tem lá seus efeitos práticos. Como nenhum candidato sabe quem são os outros, dois deles já se recomendaram calorosamente um ao outro para a comissão. Um pediu à comissão que encaminhasse uma proposta de aliança, e a comissão a devolveu ao remetente, que, descobriu-se, era o próprio destinatário. Na quinta, uma candidata entrou pelo lado errado da cortina e passou vinte minutos entrevistando os outros antes que alguém percebesse.

– Ela fez perguntas melhores que as nossas, diz o presidente da comissão. – Pedimos que ela se candidate. Só não sabemos para onde mandar a carta.

Desenho de uma mulher decidida, de chapéu com pena e casaco, sentada à mesa dobrável diante da cortina, apontando o lápis para ela. Atrás dela, um homem careca de bigode, com uma xícara de café, olha espantado. À esquerda, outras três pessoas assistem.
Quinta-feira, vinte minutos de entrevista. O presidente da comissão voltou com o café e ficou em pé o resto da noite. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

O prazo é 1º de dezembro. Nesse dia o candidato final será apresentado à assembleia de filiados, atrás da cortina, e os eleitores vão ver o rosto se o partido ganhar. A comissão já recebeu uma consulta informal de vários vereadores sobre a possibilidade de a cortina ficar o mandato inteiro. O varão, informa o presidente da comissão, está bem parafusado.

Comentários (4)

  1. Gamle Tralla

    Sim, você aí, que leu a matéria inteira e não viu um único rosto. Nem o do homem da escada. Aqui a gente não pode publicar nomes, sabe. Mas olha a luminária: está do lado da comissão, então quem está no escuro são eles. Tra-la-lá, atrás da cortina.

    PERCEPÇÃO [Lendário: Sucesso crítico]

    Repare que a luminária fica do lado da comissão. Quem segura a luz é o único na sala que não enxerga nada.

    1. Tom-Erik Haugen

      Gamle Tralla, você tem razão sobre a luminária, mas eu só consigo pensar no homem da escada. Cadeira de cozinha, garrafa térmica, gorro tira e põe – isso é uma balada. O Ståle leu a matéria e disse «coitado». Ele só disse isso duas vezes antes: quando a Noruega tirou zero pontos e quando os gatos se mudaram para a garagem. Twelve points para a escada.

      EMPATIA [Médio: Sucesso]

      Sente só. Um homem sozinho numa cadeira de cozinha, com garrafa térmica, tirando o gorro para cada estranho que passa. É a coisa mais vulnerável que você leu este ano.

  2. Bjørg Terkelsen (71)

    Quatro candidaturas escritas com a mão esquerda. Eu sei exatamente quem é, porque é a mesma letra do bilhete que deixaram na minha caixa de correio sobre a minha cerca viva. Não digo mais nada. Mas tem gente na vizinhança que de repente começou a usar gorro de tricô.

    MEIA-LUZ [Médio: Sucesso]

    Mão esquerda. Quatro cartas. Uma pessoa só. Alguém está tentando te enganar. Olha a letra. Olha agora.

  3. Aslak Lindtveit

    Aqui no estábulo toda vaca sabe meu nome, e nenhuma perguntou. Onze querem ser prefeito e nenhum tem coragem de dizer o nome. Eu votaria no homem da escada só porque ele trouxe a própria garrafa térmica. Já é mais do que a maior parte da câmara.

    LEI DE JANTE [Desafiador: Sucesso]

    Quem eles pensam que são? Onze pessoas querem mandar na cidade e nenhuma tem coragem de dizer como se chama. Você já disse seu nome para cada vaca do estábulo.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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