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O mercadinho de Mykland será salvo quando o povoado achar a última peça do quebra-cabeça

Uma família local quer assumir o mercadinho de Mykland, mas antes uma peça importante precisa se encaixar. No salão comunitário, o quebra-cabeça de mil peças do mercadinho está sem uma peça há vinte e cinco anos. É a porta.

Por Aslaug Tjønn · quarta-feira, 7 de outubro de 2026 às 07h12

Desenho de uma senhora de óculos e casaco remendado sentada sozinha à mesa à noite, com um lampião e uma caneca de lata. Diante dela, um quebra-cabeça pronto de um mercadinho do interior, com um buraco onde devia estar a porta. Ela segura uma peça solta que não encaixa.
O salão comunitário de Mykland na madrugada de quarta. O café também é do jubileu. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Foi o bilhete no mural ao lado da geladeira de leite que começou tudo. Na terça à noite, soube-se que uma família local quer assumir o mercadinho de Mykland e dar nova vida a ele, por dentro e por fora. Mas antes de dizerem o sim definitivo, dizia o bilhete, uma peça importante precisa se encaixar.

Em Mykland, as pessoas leem o que está escrito. Às dez e meia da mesma noite, a luz do salão comunitário estava acesa.

Lá estava uma professora aposentada (79), à mesa embaixo da janela, de óculos de leitura e com uma xícara de café que ela nem tinha tocado. Diante dela, o quebra-cabeça que a associação do povoado mandou imprimir no jubileu de cinquenta anos: mil peças, o mercadinho de Mykland num dia de verão, com a bandeira hasteada, bicicletas no bicicletário e a plataforma de leite ao sol. Está montado há vinte e cinco anos. Quase.

Falta uma peça, e é a porta.

– Um mercado sem porta é só um depósito com janelas, diz ela. – Ninguém tinha pensado nisso antes. Mas agora todo mundo vê.

Dicas da cabana

O povoado está de férias de outono, e o salão comunitário ficou só para ela. Mesmo assim, o telefone da cozinha tocou a noite inteira. Até as três da manhã tinham chegado 23 dicas de cabanas, trailers e de uma sogra em Bø, e 19 diziam «embaixo do sofá». Ela olhou embaixo do sofá 19 vezes. Também olhou dentro do piano, nas latas de biscoito, nos bolsos dos casacos esquecidos desde a festa de Natal e na caixa de xícaras que só sai do armário em crisma.

A busca deu resultados, só não o certo. Ao lado do quebra-cabeça há agora 31 peças que não pertencem a ele: catorze de um farol, nove de um gatinho num cesto, seis que ela não sabe o que são, uma peça de dominó e uma peça vermelha de ludo.

Desenho da mesma senhora de quatro no chão do salão, com a lanterna enfiada embaixo de um sofá florido antigo. Num banquinho atrás dela, uma tigela com peças erradas e uma peça de dominó. Um telefone de parede pendurado perto da porta.
A busca embaixo do sofá, rodada dezenove. A peça de ludo foi separada, aguardando análise. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

A peça de ludo causou inquietação. O grupo de trabalho, que na semana passada guardou a solução para o mercadinho num envelope pardo no freezer, foi convocado por telefone para avaliar se ela podia contar como uma peça importante. Depois de quarenta minutos, o grupo concluiu que era importante, mas não para o mercadinho. O caso está em análise.

Pouco antes da meia-noite, o pai da família viu a luz e passou por lá. Olhou demoradamente para o quebra-cabeça e disse, com gentileza, que a peça que eles esperam é outra. Qual, não quis dizer até que ela se encaixe. A professora assentiu, agradeceu a visita e olhou embaixo do sofá mais uma vez.

– Ele ainda é novo nisso, diz ela. – Ele vai ver.

Às 5h40 ela não ligou para ninguém. Foi até o mercadinho com uma lanterna, pegou a chave emprestada com o único vizinho que estava em casa e abriu o freezer. Atrás do gratinado de peixe, ao lado do envelope pardo, havia um pedacinho de papelão com uma porta verde. Estava congelado grudado num pacote de ervilhas. O grupo de trabalho não quer comentar o conteúdo do freezer.

Desenho visto de dentro de um freezer: a senhora de óculos olha de olhos arregalados para uma pecinha de quebra-cabeça que segura no alto, com uma lanterna na outra mão. Sobe uma névoa gelada. No freezer, uma forma de gratinado de peixe, um pacote de ervilhas e um envelope. Um vizinho aparece ao fundo, na porta.
O freezer de Mykland, 5h40. O gratinado de peixe não foi tocado, e não vai ser. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Quando o Agderpesten chegou, ela estava sentada à mesa descongelando a peça na mão. Às 6h12 ela a encaixou, e o mercadinho de Mykland teve uma porta pela primeira vez em vinte e cinco anos. A luz da janela caiu bem em cima dela.

A família já foi avisada. Pediram um tempinho para pensar, e o povoado deu a eles um quebra-cabeça novo para se distraírem enquanto isso. Tem duas mil peças e mostra o mercadinho com café, área externa e duas portas, por via das dúvidas.

Comentários (3)

  1. Arvid Holmesland

    Dezenove de vinte e três disseram embaixo do sofá. É isso que acontece quando ninguém distribui as tarefas. Eu teria dividido o salão em quadrantes e ficado com o piano. Da próxima vez que faltar uma peça, me liguem primeiro.

    ESPÍRITO DE MUTIRÃO [Trivial: Sucesso]

    Arvid. Dezenove dicas sobre o sofá não é uma busca, é uma bagunça. Divida o salão em quadrantes, um quadrante por voluntário, lista de presença na porta.

    1. Lensmannen

      Quarenta minutos por uma peça de ludo é demais, Arvid. Este que vos fala resolveu uma peça de dominó perdida em Hisøy em 1938 em menos de dois minutos, e custou à prefeitura 35 øre em sola de sapato. A peça de ludo é vermelha e pertence a outro jogo. Caso encerrado.

      AUTORIDADE [Trivial: Sucesso]

      QUARENTA MINUTOS. Numa peça de ludo. No seu tempo, o xerife decidia essas coisas em pé, de chapéu. ASSUMA O CASO.

  2. Rolf Kvernhus

    Ninguém perguntou o mais importante. A peça estava no freezer, ao lado do envelope secreto. Quem congelou a porta, e quando? Já desenhei o freezer na parede da garagem. Coincidência? Acho que não.

    PERCEPÇÃO [Trivial: Sucesso]

    Repare onde estava a peça: no freezer, ao lado do envelope. Duas coisas que o povoado não devia ver, na mesma prateleira.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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