Agderpesten NO

Sátira ReportagemPolítica

Nível mais baixo em 30 anos: Assembleia do condado decide que «tempo bom» agora quer dizer chuva

Os reservatórios de Agder estão quase vazios depois de um verão seco. Os políticos não podem fazer nada contra o tempo, mas podem fazer muito contra as palavras, e na quarta-feira fizeram, por 41 votos a 20.

Por Sindre Kvåle · quarta-feira, 30 de setembro de 2026 às 21h08

Desenho de um plenário onde políticos com roupas antigas levantam a mão. O sol entra pelas janelas altas, um homem abriu um guarda-chuva dentro da sala, e o presidente da mesa olha feio para o raio de sol.
A assembleia do condado na quarta-feira. A resolução foi tomada no que, pelo novo vocabulário, era uma tempestade daquelas. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Desde 1996 não havia tão pouca água nos reservatórios da região de energia a que Agder pertence. A companhia elétrica vem alertando há semanas, e na quarta-feira os políticos do condado também entraram em campo. Não encheram nenhum reservatório, mas aprovaram um novo vocabulário do tempo para o condado inteiro.

A resolução cabe numa página. A partir de 1º de outubro, «tempo bom», «tempo lindo» e «hoje tá um arraso» significam chuva. «Delícia de verão» significa chuva por pelo menos seis horas. O sol deve ser chamado de «seca» em documentos oficiais e de «aquilo lá» na fala do dia a dia.

– Por gerações convencemos o povo do Sul a amar o sol, disse o relator da tribuna. – Agora precisamos desconvencê-lo. Não está provado que isso ajude os reservatórios, mas também não está provado que não ajude, e para uma assembleia de condado isso sempre bastou.

O debate opôs o litoral ao interior. Um representante de Åmli, lá nas montanhas, disse que o litoral teve sol o verão inteiro e se gabou disso no jornal todo dia. – Vocês gastaram o sol do condado todo, e agora nós aqui em cima vamos pagar na conta de luz, disse ele, no sotaque da serra. O litoral respondeu que o sol foi distribuído por número de habitantes, e que as montanhas receberam a sua parte em forma de vista.

O que mais tomou tempo foi a palavra «toró». Uma minoria queria transformá-la na nova palavra para «radiante». A proposta caiu porque ninguém na sala jamais tinha ouvido alguém dizê-la com alegria.

Como comentarista político, li os dois lados com atenção. Há bons argumentos para chamar o sol de sol, e há bons argumentos para chamá-lo de outra coisa. Os melhores argumentos, porém, estão do lado seco, onde quase não há argumentos, e portanto quase nada de que discordar.

Nos bancos junto a Pollen, o porto do centro de Arendal, o vocabulário já estava em uso na quarta à tarde. Um aposentado estava sentado com o rosto virado para o sol, olhos fechados e um sorriso largo. – Que tempo horroroso, disse ele, espreguiçando-se. – A gente fica até deprimido. Segundo ele mesmo, tem ficado deprimido desse jeito toda tarde desde a primavera.

Uma consultora de energia que alerta sobre reservatórios baixos todo outono há trinta anos ouviu a resolução pelo telefone. – Eu avisei, disse ela. Depois ficou um tempo em silêncio na linha. – Eu avisei que alguém ia aprovar uma coisa dessas também. Ela guarda os alertas em pastas de arquivo, e as pastas já ocupam tanto espaço que a companhia elétrica cogitou construir uma barragem para contê-las.

Desenho de um senhor de boina sentado num banco junto ao porto, de olhos fechados e rosto virado para o sol, sorrindo, com um papel no colo. Uma mulher de chapéu olha para ele intrigada.
O aposentado em Pollen na quarta-feira. Ele pediu que ficasse registrado que estava sofrendo muito. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

A previsão do tempo ganhou um problema prático. Para quinta-feira estão previstos cerca de cinco milímetros de chuva, e pelo novo vocabulário isso deve ser lido como «radiante». O pessoal dos barcos em Tromøy ouviu a previsão no rádio na quarta à noite e já pôs os barquinhos na água, com café, garrafa térmica e bermuda.

O irmão mais velho a oeste anunciou recurso. Kristiansand alega que a chuva que cai sobre Agder pertence à cidade por antiga tradição, já que quase sempre passa por lá primeiro. O procurador do condado respondeu que o caso será avaliado, e que Kristiansand pode ficar com a seca de bom grado.

Desenho de três homens de calça curta e chapéu de palha colocando um barco a remo na água sob chuva forte. Um deles ergue uma garrafa térmica, outro empurra o barco descalço.
Tromøy, quarta à noite. O pessoal dos barcos passou protetor solar antes de ouvir a previsão até o fim. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

A companhia elétrica calculou que os cinco milímetros de quinta-feira vão elevar os reservatórios em mais ou menos um balde. Em Stoa, a notícia foi recebida com grande decepção, o que pelo novo vocabulário quer dizer que todo mundo ficou muito satisfeito.

Comentários (4)

  1. Tidligere_varaordfører

    Quando eu era vice-prefeito, aprovamos que neve passaria a se chamar «luz de inverno». Foi em 2009, e desde então não nevou direito. Então vocês sabem a quem agradecer. Aliás, eu lembro quem votou contra.

  2. Faktasjekkern

    Checado: cinco milímetros sobre uma bacia do tamanho de Agder não é um balde. São bastante baldes. Mas provavelmente menos que as pastas de arquivo.

  3. Faktasjekkern

    Se tempo bom quer dizer chuva, e está prevista chuva, então vai fazer tempo bom. Então não vai chover. Então não é tempo bom. Então chove. Estou nisso desde o almoço.

  4. JervTilJegDør

    Se estiver «radiante» em Levermyr no fim de semana, levo capa de chuva e uma cerveja extra pro intervalo. Choro de qualquer jeito.

Os comentários são moderados automaticamente.

Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

← Voltar à capa