Sátira ReportagemCultura
Governo regional muda o agente de trânsito de lugar porque as pessoas paravam para assistir
A Vesterveien foi fechada na segunda de manhã depois que começou a jorrar água da rocha que estava sendo reforçada. Mas o caos no centro não veio da rua fechada, e sim dos motoristas que ficavam parados assistindo ao agente de trânsito. A partir de terça, ele fica num lugar onde ninguém o vê.
O primeiro dia útil depois das férias de outono começou às 6h50, quando um operador de máquina fez o último furo no paredão de rocha acima da Vesterveien. A rocha seria reforçada com parafusos e tela antes do inverno. Ela respondeu com água, num arco certinho que caía bem no meio da pista. A rua foi fechada, e um agente de trânsito de colete amarelo foi posto no cruzamento logo abaixo para desviar o tráfego.
Não tinha nem cinco minutos ali quando o primeiro carro parou. Não porque precisava, mas porque o motorista queria ver o resto.
Dá para entender. O agente abre com o braço esquerdo, esticado, e segura um pouco mais do que o necessário. A mão direita vem depois, com a palma para baixo, como quem acalma uma orquestra que ninguém mais escuta. Quando ele gira para liberar o trânsito que vem do centro, faz isso no calcanhar, num movimento só, e o colete alcança o corpo meio segundo depois. Isso não se aprende. Não tem como aprender.
Às 7h20 havia onze carros no cruzamento, motor ligado e ninguém querendo andar. Às 7h35 eram 43. Um ônibus a caminho de Stoa ficou parado quatro minutos com as portas abertas. Os passageiros tinham descido para a calçada para ver melhor.
– Ele me mandou seguir três vezes. Eu fiquei. Foi o terceiro aceno. Era diferente dos dois primeiros, diz um trabalhador que vem todo dia de Tromøy, que chegou 40 minutos atrasado e não se arrepende.
Duas curtas e uma longa
Lá pelas oito, os motoristas começaram a buzinar. Não do jeito que motorista de Arendal costuma buzinar, mas duas curtas e uma longa, no ritmo dos braços. Uma senhora de uns sessenta anos veio andando de Tyholmen com uma cadeira dobrável debaixo do braço e se sentou no meio-fio. Tinha ficado sabendo na padaria.
– Já vi ele antes, no estacionamento de Harebakken. Lá ele era bom. Mas não era nada perto disso. Aqui ele tem a rocha atrás, diz a senhora, que ficou sentada até a troca de turno, às dez.
O agente não quis dar entrevista. Pouco antes da troca de turno, limitou-se a apontar uma van para frente e fazer uma leve reverência para a calçada. É difícil dizer se a reverência era para o público ou para uma tampa de bueiro que ele tinha notado. Tanto faz. A reverência estava certa, e ficou claríssimo onde ela terminava.
A água da rocha está sob controle. Os braços é que não estão.
O governo regional tomou providências. Segundo uma nota da gerência do projeto de reforço da rocha, a partir de terça o controle do trânsito vai ficar 60 metros ladeira acima, atrás de um caminhão com lona. O agente vai continuar orientando, mas só o tráfego que já passou por ele.
– Não podemos ter no centro um lugar onde as pessoas param por vontade própria. Aí, na prática, criamos uma praça, e praça precisa ser regulamentada, diz um mestre de obras do governo regional. – A água da rocha está sob controle. Os braços é que não estão.
A nota também pede que os movimentos longos sejam trocados por sinais mais curtos e neutros. A empresa de segurança respondeu que o agente foi avisado. O agente respondeu que os curtos eram aqueles.
Na segunda à tarde, a água da rocha tinha virado um fiozinho escorrendo pela parede, e a equipe se prepara para voltar a furar amanhã. A senhora da cadeira dobrável já descobriu onde o caminhão com lona vai ficar. Perguntou se podia levar uma amiga. Ouviu um não. Ela chega às sete.
O governo regional informa que a Vesterveien provavelmente reabre ainda esta semana. Aí não vai precisar de agente nenhum. Ninguém contou para ele ainda. Ninguém quer ser a pessoa que conta no meio de um movimento.
A matéria te fez rir, ou pelo menos sorrir? Aperte a caveira.
Anotado. O editor-chefe chama isso de um avanço para toda a região.
Comentários (6)

Abdirahman Warsame
Wallah, agora o governo diz que é praça. Praça em Arendal tem que ter mastro de bandeira, chefe. Dá um mastro pro homem e deixa ele onde está.
AUTORIDADE [Trivial: Sucesso]
PRAÇA? Isso é um CRUZAMENTO. Quem está no meio do cruzamento tem o comando. Diga isso na cara, soldado.

Halvor Jortveit
Abdirahman, uma praça é por definição um espaço aberto para comércio. Não houve comércio nenhum na Vesterveien hoje. Mandei ao governo regional uma correção com caneta vermelha. Aliás, também tinha um homem acenando no gelo em 1962, e ele acenou para o lado errado.
AUTORIDADE [Médio: Falha]
RESPONDA. Você corrigiu redação por quarenta anos. DIGA a ele o que é uma praça. Agora.

Kai Robert Tønnessen
Fiquei 22 minutos no carro número doze aplaudindo com o limpador de para-brisa. A reverência foi para uma tampa de bueiro. Não exijo nada. Só quero que fique registrado aqui que eu vi.
DRAMA [Formidável: Sucesso]
(As luzes baixam.) Ele fez a reverência, meu senhor. Mas não para você. Para uma tampa de bueiro. Você ficou vinte minutos no carro número doze, e quem ganhou a reverência foi o bueiro.

Wenche Olsen (72)
Que bom que você viu, Kai Robert. Nem todo mundo aguenta ver algo bonito sem reclamar. Amanhã levo uma garrafa térmica para o agente. Alguém tem que contar para ele com delicadeza, e com certeza não vai ser a Bjørg.
EMPATIA [Trivial: Sucesso]
Sinta, Wenche. Ele está lá de braços abertos e não sabe que a rua vai reabrir. Alguém precisa ser gentil com ele. Pode muito bem ser você.

Tom-Erik Haugen
A cidade inteira sabia disso antes de mim? Eu, que cuido de tudo que envolve braços e ritmo nesta cidade desde 2011. O Ståle passou de carro e reduziu para 28 por hora. Vindo do Ståle, isso é aplauso de pé. Twelve points, mas estou magoado.
OLHAR DO VIZINHO [Médio: Falha]
Quem soube antes de você? A padaria soube. A mulher da cadeira dobrável soube. E você em casa. O que vão dizer.

Ida Sørensen-Nyhus
Ninguém fala da rocha. Ela segura essa água desde a era do gelo, e no primeiro dia útil depois das férias alguém veio furar. A rocha também não estava pronta para segunda-feira. Estou escrevendo sobre isso no meu mestrado (Sørensen-Nyhus, 2026).
PAISAGEM INTERIOR [Trivial: Sucesso]
A rocha diz: segurei esta água desde que o gelo foi embora. Fizeram um furo. O que esperavam que acontecesse.
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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.
