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– Aqui a gente usa voz de dentro: Mediador Nacional instituiu roda de conversa, pausa da fruta e hora do descanso para as partes na mediação das creches
Depois de um dia de mediação, as partes ganharam cabide com etiqueta de nome, roupa extra e relatório diário para casa. A única coisa em que concordam é quem fica com a pá vermelha.
A mediação das creches privadas começou na segunda-feira no escritório do Mediador Nacional, o órgão público norueguês que tenta evitar greves. Antes do almoço, cada parte já tinha seu cabide com etiqueta de nome, sua cesta com roupa extra e o aviso de que na sala de mediação se usa voz de dentro.
– Percebemos rápido que havia necessidade de estrutura, diz um técnico do Mediador Nacional. – As partes chegaram com sentimentos grandes e pouca linguagem para eles. Aí ajuda ter uma rotina fixa.
O dia agora começa com roda de conversa às nove. As partes sentam em círculo no chão, cantam sobre que dia da semana é e contam uma coisa que querem dizer sobre o reajuste salarial. Segundo a ata, o lado patronal disse «nada» e o lado dos trabalhadores disse «tudo». Os dois foram elogiados por levantar a mão.
Às onze é a pausa da fruta. A fruteira logo virou objeto de uma negociação própria, em que o lado patronal ofereceu duas fatias de maçã e meia banana em troca de os trabalhadores retirarem a reivindicação de previdência. A oferta foi recusada como «nem sequer uma banana inteira».
Depois do almoço vem a hora do descanso. As partes deitam cada uma no seu colchonete com seu bichinho de pelúcia, e o mediador lê em voz alta o acordo básico até alguém dormir. Isso ainda não aconteceu. – Infelizmente o acordo básico é muito emocionante para essas pessoas, diz o técnico.
Toda tarde um relatório diário é mandado para casa, para as organizações. O relatório de segunda, ao qual o jornal teve acesso, conta que o lado patronal «comeu bem, mas teve um dia desafiador para dividir», e que o lado dos trabalhadores «participou de tudo, mas ficou triste quando se falou de previdência». As duas partes levaram um desenho para casa. Um deles retrata uma planilha.
O maior conflito até agora não foi sobre salário. Por volta das duas surgiu um desacordo sobre quem ficaria com a pá vermelha na caixa de areia que o Mediador Nacional montou no corredor. O mediador resolveu com revezamento e um timer de ovo, e esse é até agora o único ponto em que as partes chegaram a um acordo.
Um ex-mediador, que acompanha as negociações de um banco no corredor, diz que o modelo creche já foi testado antes, mas nunca de forma tão consistente. – Na greve dos maquinistas sugeriram dar colete refletivo às partes e levá-las para passear, mas elas só queriam ficar sentadas na plataforma, diz ele, lembrando que aquele conflito continua em cartaz para plataformas lotadas.
Um dos pontos mais difíceis foi a adaptação. O lado patronal tinha pedido «um começo suave ao longo de três dias com um adulto presente», e por isso apareceu na segunda com o próprio presidente do conselho, que ficou num canto acenando pelo vidro toda vez que alguém olhava.
Às quatro veio o aviso que todos temiam: hora da saída. As organizações tinham que buscar suas partes antes do fechamento, e uma delas chegou doze minutos atrasada. O Mediador Nacional registrou o ocorrido e lembra que atrasos repetidos podem gerar multa, que nesse caso será incluída na proposta.
– Tínhamos esperança de que adultos pudessem sentar e conversar, diz o técnico. – Mas quando vimos que os funcionários das creches conseguem fazer vinte crianças de três anos vestirem a capa de chuva ao mesmo tempo, entendemos quem deveria conduzir a mediação. Perguntamos se algum deles poderia assumir. Disseram que, infelizmente, vão entrar em greve na quarta.
O prazo termina à meia-noite de terça. O Mediador Nacional informa que, se for preciso, as partes vão dormir lá, com luz noturna e um copo de água cada, e que ninguém pode negociar depois que a luz se apagar. O mediador já colocou um esboço de solução na mochila das duas partes. Ninguém abriu, mas um dos lados perguntou se dá para trocar.
Comentários (5)

Hyttevertinna_Lyngør
Coitado do presidente do conselho que ficou no canto acenando. Tive um hóspede de Bærum que fez exatamente isso pela janela da cozinha a Páscoa inteira. Ele também nunca entrou, porque não tinha pago o depósito.

Lompe_Anonym
Não é do presidente do conselho que você deve ter pena. É de quem estiver com a pá vermelha quando o timer tocar na terça. Todo mundo sabe como termina quando ninguém quer soltar.

Tidligere_varaordfører
Roda de conversa, pausa da fruta e hora do descanso. É a pauta da comissão executiva da prefeitura, só que sem cantoria. O Mediador Nacional não inventou absolutamente nada.

Innflytter_fra_Bergen
Em Bergen a gente mediava ao ar livre, de capa de chuva, e ninguém precisava de voz baixa porque ninguém se ouvia mesmo. Eram negociações melhores. Não lembro no que a gente concordou, mas choveu o tempo todo, e foi lindo.

Sørlandsk_Stillhet
Aqui também tem capa de chuva.
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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.
