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– Aqui a gente usa voz de dentro: Mediador Nacional instituiu roda de conversa, pausa da fruta e hora do descanso para as partes na mediação das creches

Depois de um dia de mediação, as partes ganharam cabide com etiqueta de nome, roupa extra e relatório diário para casa. A única coisa em que concordam é quem fica com a pá vermelha.

Por Kjell-Arne Pedersen · segunda-feira, 28 de setembro de 2026 às 19h05

Homens e mulheres de terno e chapéu sentados em roda no chão com a mão levantada, enquanto um mediador de colete senta de pernas cruzadas no meio. Na parede, cabides com etiquetas de nome e cestas com roupa extra.
Roda de conversa no Mediador Nacional na segunda de manhã. O lado patronal levantou a mão primeiro, mas não tinha nada a dizer. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

A mediação das creches privadas começou na segunda-feira no escritório do Mediador Nacional, o órgão público norueguês que tenta evitar greves. Antes do almoço, cada parte já tinha seu cabide com etiqueta de nome, sua cesta com roupa extra e o aviso de que na sala de mediação se usa voz de dentro.

– Percebemos rápido que havia necessidade de estrutura, diz um técnico do Mediador Nacional. – As partes chegaram com sentimentos grandes e pouca linguagem para eles. Aí ajuda ter uma rotina fixa.

O dia agora começa com roda de conversa às nove. As partes sentam em círculo no chão, cantam sobre que dia da semana é e contam uma coisa que querem dizer sobre o reajuste salarial. Segundo a ata, o lado patronal disse «nada» e o lado dos trabalhadores disse «tudo». Os dois foram elogiados por levantar a mão.

Às onze é a pausa da fruta. A fruteira logo virou objeto de uma negociação própria, em que o lado patronal ofereceu duas fatias de maçã e meia banana em troca de os trabalhadores retirarem a reivindicação de previdência. A oferta foi recusada como «nem sequer uma banana inteira».

Depois do almoço vem a hora do descanso. As partes deitam cada uma no seu colchonete com seu bichinho de pelúcia, e o mediador lê em voz alta o acordo básico até alguém dormir. Isso ainda não aconteceu. – Infelizmente o acordo básico é muito emocionante para essas pessoas, diz o técnico.

Homens de terno deitados bem acordados em colchonetes, cada um com seu ursinho de pelúcia, enquanto um mediador lê em voz alta um livro grosso ao lado de uma lâmpada.
Hora do descanso. Ninguém dormiu ainda, mas o lado dos trabalhadores pediu o capítulo quatro de novo. Ilustração: Gunnar Skravur (esboço – a versão final nunca virá) (IA)

Toda tarde um relatório diário é mandado para casa, para as organizações. O relatório de segunda, ao qual o jornal teve acesso, conta que o lado patronal «comeu bem, mas teve um dia desafiador para dividir», e que o lado dos trabalhadores «participou de tudo, mas ficou triste quando se falou de previdência». As duas partes levaram um desenho para casa. Um deles retrata uma planilha.

O maior conflito até agora não foi sobre salário. Por volta das duas surgiu um desacordo sobre quem ficaria com a pá vermelha na caixa de areia que o Mediador Nacional montou no corredor. O mediador resolveu com revezamento e um timer de ovo, e esse é até agora o único ponto em que as partes chegaram a um acordo.

Dois homens de terno e chapéu-coco ajoelhados numa caixa de areia segurando a mesma pá, enquanto um terceiro homem atrás deles ergue uma ampulheta.
A caixa de areia no corredor. O timer de ovo estava ocupado, então o mediador pegou emprestada a ampulheta das negociações principais. Ilustração: Gunnar Skravur (IA)

Um ex-mediador, que acompanha as negociações de um banco no corredor, diz que o modelo creche já foi testado antes, mas nunca de forma tão consistente. – Na greve dos maquinistas sugeriram dar colete refletivo às partes e levá-las para passear, mas elas só queriam ficar sentadas na plataforma, diz ele, lembrando que aquele conflito continua em cartaz para plataformas lotadas.

Um dos pontos mais difíceis foi a adaptação. O lado patronal tinha pedido «um começo suave ao longo de três dias com um adulto presente», e por isso apareceu na segunda com o próprio presidente do conselho, que ficou num canto acenando pelo vidro toda vez que alguém olhava.

Às quatro veio o aviso que todos temiam: hora da saída. As organizações tinham que buscar suas partes antes do fechamento, e uma delas chegou doze minutos atrasada. O Mediador Nacional registrou o ocorrido e lembra que atrasos repetidos podem gerar multa, que nesse caso será incluída na proposta.

– Tínhamos esperança de que adultos pudessem sentar e conversar, diz o técnico. – Mas quando vimos que os funcionários das creches conseguem fazer vinte crianças de três anos vestirem a capa de chuva ao mesmo tempo, entendemos quem deveria conduzir a mediação. Perguntamos se algum deles poderia assumir. Disseram que, infelizmente, vão entrar em greve na quarta.

O prazo termina à meia-noite de terça. O Mediador Nacional informa que, se for preciso, as partes vão dormir lá, com luz noturna e um copo de água cada, e que ninguém pode negociar depois que a luz se apagar. O mediador já colocou um esboço de solução na mochila das duas partes. Ninguém abriu, mas um dos lados perguntou se dá para trocar.

Comentários (5)

  1. Hyttevertinna_Lyngør

    Coitado do presidente do conselho que ficou no canto acenando. Tive um hóspede de Bærum que fez exatamente isso pela janela da cozinha a Páscoa inteira. Ele também nunca entrou, porque não tinha pago o depósito.

    1. Lompe_Anonym

      Não é do presidente do conselho que você deve ter pena. É de quem estiver com a pá vermelha quando o timer tocar na terça. Todo mundo sabe como termina quando ninguém quer soltar.

  2. Tidligere_varaordfører

    Roda de conversa, pausa da fruta e hora do descanso. É a pauta da comissão executiva da prefeitura, só que sem cantoria. O Mediador Nacional não inventou absolutamente nada.

  3. Innflytter_fra_Bergen

    Em Bergen a gente mediava ao ar livre, de capa de chuva, e ninguém precisava de voz baixa porque ninguém se ouvia mesmo. Eram negociações melhores. Não lembro no que a gente concordou, mas choveu o tempo todo, e foi lindo.

    1. Sørlandsk_Stillhet

      Aqui também tem capa de chuva.

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Tradução: Giovanna Kellyane dos Santos, nossa correspondente no Brasil, que não tinha nada melhor para fazer.

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